Viver é, a princípio, esquecimento. O desejo lhe saiu pelos olhos, lhe escorreu pela boca e se esparramou pela pele, assim, feito espuma que se expande ao menor sinal de fricção. Havia alguma espécie de desvio no ritmo da rua enquanto nos preparávamos para desprender-nos as mãos. Mais que isso, era possível reconhecer a presença sorrateira e imperdoável da própria verdade. Silêncio. Permitimos o instante, fechamos os olhos ao tempo. A compreensão do tempo mostra-se como o mais bonito retrato da própria liberdade. Ser livre é experimentar-se quantas vezes nos for necessário.

O encontro, com sua própria verdade e com a capacidade de caminhar ao lado da verdade do outro, é um suspiro silencioso e suave. A compreensão do silêncio passa a ser fielmente carregada nos olhos daquele que a amou por um único instante. O silêncio, ou a compreensão do amor, é a verdade que nos consome a ingenuidade e não mais nos larga. Ao amor, misturamos a própria verdade ao sabor suave da invenção. Eu inventei uma esquina no concreto, só pra fingir que a gente cruzava as nossas calçadas. Inventei um espasmo de luz no escuro, só pra fingir que a gente se enxergava pelos olhos. Eu inventei mais uma noite, só pra fingir que não me despertava quando fosse dia. Eu inventei outra memória, só pra fingir que eu já não sabia.

Descompasso das horas

Entre o descompasso das invencionices, entendemos, não há invenção suficiente que nos tome o gosto da própria verdade. Continuaremos, ora inteiros, ora em pedaços, ora vazios, ora repletos de laços. Continuaremos ainda que nos seja um quase inexpressível caminhar. Tomaremos por construção própria o torto caminho que nos torna possível não interromper os suspiros profundos e tranquilamente sós. Há pouca diferença entre o suspiro silencioso e aveludado que pulsa do amor ou o suspiro que range e marca o impulso da dor. Engoliremos então alguma bebida forte e amarga que seja capaz de nos distanciar da proximidade e da percepção do tempo.

Não mais permitiremos que nos rasguem a garganta todas as palavras engolidas e em seguida, rasgaremos o papel que imprime a mais sutil marca da saudade. Não sabes? Por fora da invencionice abstrata das horas vazias não há espaço para a nostalgia barata. Cansa essa história de amar sentado, nos permitiremos então, mergulhar ao desamor que nos leva ao intenso caminhar. Fecharemos os olhos, ainda que em vão, à procura da mais sincera inspiração melancólica. No passado, enquanto nos pulsava apenas a vontade, era possível tocar os céus. Tocar aos céus por essa imensa vontade, permanente, de sermos livres. Iremos até o fim dos tempos em busca daquilo que parece nos manter reconhecíveis dentro da própria pele.

Reconhecer-se

E quando for possível reconhecer-se, totalmente a sós, imaginaremos o que seria compartilhar-se em alguém mais. Seria a solidão alguma espécie de caminho sem volta? Há quem diga que é possível experimentar de todos os sabores sem deixar que se transformem em vícios. O vício do outro. Ou o vício de si. Ao que parece, viveremos sempre entre o desejo, a satisfação e a imensa vontade de permanecer do lado em que não se está. Estamos fadados ao movimento, à transformação. Logo, o que permanece é, exclusivamente, o própria caminhar. Olharemos de longe ao passado, imaginando que textura de pele nos cabia melhor.

Por um instante, nos deixaremos enganar pelo antigo corpo que éramos. A memória é sempre carregada das mais sinceras ilusões. Acordaremos enfim, de encontro ao amargo sabor do café. Não há fugas ao amanhecer, o segredo do tempo permanece, permanentemente, ao silêncio da noite. Esqueceremos o toque aos céus, a possibilidade dos caminhos e o vício da própria companhia. Viver é, a princípio, esquecimento.