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Quinta-feira, 21h, ruas que me passavam entre um silêncio ensurdecedor.  Não tinha gente andando na calçada, não ouvi som de riso na rua, quem me dera um barzinho e um violão. Agosto de 2015, atriz, eu tinha feito parte de um projeto do que poderia ser uma banda amadora. Tínhamos 3 vozes, 1 guitarra, 1 violão e uma porção de letras escritas entre melodias e notas conjuntamente criadas. Queríamos tocar juntos pela primeira vez, um pequeno show de estreia de um som tranquilo. Lembro de ter ligado para uma lista grande de estabelecimentos que se espalhavam pelas asas sul e norte, em sua grande maioria, a mesma resposta. “Desculpe, não estamos mais trabalhando com música ao vivo…”. Por distração, aquilo me pareceu alguma espécie de crise temporária e quase 6 meses depois o silêncio que anda buscando a cidade ainda me assusta.

Ao mesmo tempo, me alivia a sensação de resistência. Não somos uma cidade que, por apresentar ainda pouca idade, não descobriu sua cultura. Somos uma cidade que pulsa resistência e vontade de continuar. Vejo a arte brotar, insistentemente, das calçadas e das curvas de concreto. Vejo o teatro que ainda se faz, mesmo que sem espaço físico. Vejo a nova banda que inventa um lugar pra mostrar seu som, vejo o cantor que vai até a calçada, que sobe no caixote e respira uns versos bonitos sem a menor intenção de parar. Eu vejo uma porção de artistas que se unem para inventar seus próprios espaços. Aliás, o que seria de nós se não nos restasse ao menos a possibilidade de invenção? Eu vejo a cidade que não quer se calar enquanto o peito ainda pulsa, e como pulsa. Logo mais é carnaval. Eu quero é ver toda gente pulando na rua enquanto eu, aqui do meu posto de moradora da asa norte, abro espaço para o bloco passar. Eu quero saber que a rua é minha, a rua é sua, a rua é do artista, a rua é o ponto que canta e faz viva a cidade. Eu quero ver o concreto se espumar de música enquanto o asfalto quase se faz criatura ao som de alguma canção.

Vai ter espaço pra gente cantar, sorrir, ser performático e bater o chinelo no chão. Vai ter espaço pra gente continuar a se descobrir como cidade viva, como gente que inventa e faz da possibilidade do nada um eterno impulso de criação. Vai ter criança gritando no parquinho, vai ter gente de todo tipo usando as academias a céu aberto, vai ter moleque jogando bola na quadra e vai ter apito também. Vai ter artista cantando na calçada e vai ter adolescente debaixo do bloco tocando violão. Eu prometo que a gente não exagera, mas faça-me o favor, antigo morador, escuta o som e deixa o bloco passar.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/01/11/interna_diversao_arte,513513/artistas-de-brasilia-se-movimentam-para-musica-e-a-arte-continuem-a-o.shtml

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/01/19/interna_diversao_arte,514395/bares-se-adaptam-a-lei-do-silencio-e-oferecem-musica-ao-vivo.shtml

http://fatoonline.com.br/conteudo/15165/lei-do-silencio-pode-limitar-o-carnaval-de-rua-de-brasilia?or=home&p=u&i=1&v=0