Poucos passos me separavam da paralisia completa e do doce sabor da travessia. Olhava em frente procurando enxergar ao longe. Os olhos esticados e a boca formando um semi-sorriso ao entender os pequenos mistérios de criar entre a dor e o amor. Creio nas misérias e na possibilidade do total fracasso com a mesma intensidade em que acredito nas mãos que se enlaçam para caminharem juntas. Creio ainda nos pés que avançam firmes para atravessar a seca cheia de sorrisos no lugar onde aprendi a ser meu próprio Deus e a não me esquecer do mar enquanto caminho pelo sertão. A maresia me faz brotar, entre o suor a pele molhada, algo de vivo, salgado e feroz, ainda tão doce quanto é saudade que guardo de casa.  Doce como a sensação macia de quando atravesso e volto e outra vez eu parto e logo me reconheço neste e naquele outro chão. Queria um pouco do que havia de ingênuo na infância sem me esquecer do que vi e sorri e chorei entre o pouco e o muito tempo de meus caminhos embrenhados entre o mar e o sertão. É da memória e da poeira do tempo a cor de meus olhos e mudam de tom e textura quando enxergam o sol.

Desde sempre a saudade teve cheiro de mar. Associei a falta aos desejos que me davam quando eu ansiava por me sentar outra vez na areia e sentir a maresia. O toque áspero de sal e areia, a brisa morna que faz suar a pele desacostumada. O gosto é bom e o tempo é farto, a saudade assim é que me faz transpirar. Olho ao mar e enxergo outra vez o instante da partida. O desejo de permanência logo me dói e rabisco algo insensato no velho caderno de notas. A senhora ao lado me observa e imediatamente me vejo como um adolescente que, ao sentir-se tomar por toda nova angústia, logo crê que é poeta. Acho graça dos devaneios, da crença na poesia, nas rimas que se espalham por todo canto e grudam nas peles jovens e enrugadas feito um verme. Gente assim tenta preencher seus vazios com palavras e, por hora, funciona. Beijava as letras que me buscavam afoitas como um homem quando se percebe apaixonado. Todo homem deve saber preencher seus próprios pontos de desassossego. Bobagens, mas assim eu acreditava. Coloquei os olhos novamente no papel. A página branca, fixa, intacta. Queria saber ainda fazer uns versos, escrever contos e poemas tão adocicados que fariam revirar o estômago dos que caminham solitários por qualquer calçada. Mas eu não sabia mais pensar poemas. Fiquei sentado e deixei os pés afundarem de uma vez na areia. Do outro lado, a mesma senhora fixava agora seu olhar em frente, cheio de uns olhos vazios. Muita certeza se perde e se encontra no mar. A observação do invisível nos alimenta.