Inicio cada página sendo acompanhado um pouco pela sorte do acaso, outro tanto pela vontade do diálogo. A meu ver, terminar um livro é concluir uma travessia. Corro os dedos pelas páginas e me encontro submerso. Entre idas e vindas, encontraremos algum ponto específico onde será sempre possível respirar a plenos pulmões. Por folhas rasgadas, tintas borradas e ideias amassadas, me entrego ao desejo e ao desespero de determinar o espaço onde me seja possível iniciar uma conversa que se prolongue, reconhecer algumas certezas e caminhar por alguns instantes com os dedos entrelaçados. O vício que me toma a garganta e me corrói os ossos é este, o da pura e simples descoberta, alinhada com a intensa vontade de deixar viver algumas histórias. Quero contar a história dos amores que nunca vivi, dos desencontros que puderam me contar, dos lugares onde desejei permanecer e de algum nome perdido no tempo que nunca tenha podido se eternizar. Sento por vezes quase louco em alguma calçada quebrada e escuto o embaralhar de um amontoado incessante de inícios e fins. E assim, alucinados, buscamos pelo mistério cotidiano e quase previsível que acompanha os meios. Não garanto lucidez em qualquer boa história, garanto a verdade angustiante de quem ainda busca algo a lhe explicar ou apenas lhe dizer.

Creio não saber coisa alguma de amores. Há sempre um sujeito mais novo ou mais velho com algo mais sábio e prudente a me vanglorias. Contam-me a verdade dos encontros e a certeza das despedidas, me mostram as fotos das viagens, dos casórios, batizados; desenrolam em uma língua farta a lembrança das brigas, dos desejos que pulsam e cessam sem avisar; ganho conselhos, ensinamentos, parábolas e todo o tipo de verdades impregnadas que um homem qualquer imagine existir. Não duram um ano. Os eternos apaixonados encantam-se, por vezes, à vida desregrada dos amantes, enquanto estes, tempos depois que me falam, fazem novas juras e prometem a falta de razão do não abandono. É uma ciência inexata e, mesmo entre os céticos, envolve os vícios, os porres, as conversas e as pretensões de jovens, velhos, moças e meninos. Ainda assim, atravessamos.

 

A gente insiste em pensar o amor e o afeto,

ao menos por algum instante incerto,
que é pra tornar o mundo um delírio
pouco menos inalcançável.