[Da série: pequenos contos para ler em tempos de respiro]

Inicio cada linha sendo acompanhado um pouco pela sorte do acaso, outro tanto pela vontade do diálogo. A meu ver, terminar uma história é concluir uma travessia. Corro os dedos pelas páginas e me encontro submerso. Entre idas e vindas, encontraremos algum ponto específico onde será sempre possível respirar a plenos pulmões. Por folhas rasgadas, tintas borradas e ideias amassadas, me entrego ao desejo e ao desespero de determinar o espaço onde me seja possível iniciar uma conversa que se prolongue, reconhecer algumas certezas e caminhar por alguns instantes com os dedos entrelaçados.

O vício que me toma a garganta e me corrói os ossos é este, o da pura e simples descoberta, alinhada com a intensa vontade de deixar viver algumas histórias. Quero contar a história dos amores que nunca vivi, dos desencontros que puderam me contar, dos lugares onde desejei permanecer e de algum nome perdido no tempo que nunca tenha podido se eternizar. Sento por vezes quase louco em alguma calçada quebrada e escuto o embaralhar de um amontoado incessante de inícios e fins. E assim, alucinados, buscamos pelo mistério cotidiano e quase previsível que acompanha os meios. Não garanto lucidez em qualquer boa história, garanto a verdade angustiante de quem ainda busca algo a lhe explicar ou apenas lhe dizer.

Creio não saber coisa alguma de amores. Há sempre um sujeito mais novo ou mais velho com algo mais sábio e prudente a me vanglorias. Contam-me a verdade dos encontros e a certeza das despedidas, me mostram as fotos das viagens, dos casórios, batizados; desenrolam em uma língua farta a lembrança das brigas, dos desejos que pulsam e cessam sem avisar; ganho conselhos, ensinamentos, parábolas e todo o tipo de verdades impregnadas que um homem qualquer imagine existir. Não duram um ano. Os eternos apaixonados encantam-se, por vezes, à vida desregrada dos amantes, enquanto estes, tempos depois que me falam, fazem novas juras e prometem a falta de razão do não abandono. É uma ciência inexata e, mesmo entre os céticos, envolve os vícios, os porres, as conversas e as pretensões de jovens, velhos, moças e meninos. Ainda assim, atravessamos.

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A gente é interessante enquanto duram as primeiras xícaras de café e permanecem notáveis as novas histórias. Os cafés acabam, enquanto termina a capacidade individual de encantar alguém. Previsíveis, quase inertes, criaríamos algo que nos parecesse uma epifania única e singular. Eu queria fugir do abismo que se forma tedioso entre o cotidiano que não podemos explicar. Queria lhe trazer todos os dias uma nova história, uma nova possibilidade, um novo caminho que pudesse lhe despertar outra vez aquele encanto no olhar. Enxergo nos olhos o espelho do tédio e as pequenas novidades que passam a todo lugar. Seria esse o desencanto de quando se acostumam aos versos? Achamos que o tempo havia nos acostumado à solidão. Erramos.

O corpo busca, sem cessar, um corpo outro que nunca alcança. Enxergo os olhos, imagino tocar o corpo. Deixo coar o café e não mais o ofereço, espero que o cheiro se espalhe por todo o lugar. Por fora de cada janela (ou sempre da mesma) observo as calçadas, o barulho dos sábados, a movimentação das noites e as ruas que esvaziam sem aviso prévio. Anoto o que dizem, imagino um lugar, um sonho, um tempo e conto uma história qualquer para preencher o tempo. De longe, constato, queria alcançar o corpo.

Creio ter olhado um ano inteiro para as mesmas fotos, desgastadas. Tem vez que o marasmo bate feito uma onda pequena e quase eterna. O corpo fica ali largado, balançando sem ritmo e sem força de sair do lugar. No instante de um casos desses o tempo inteiro congelava, eu não sabia fazer algo diferente. Sentei na calçada com mais desânimo do que paciência e observei aquela gente toda passar. Quando me perdia eu queria ficar só, em um canto tão vazio que me fosse possível sentir o peso do vácuo. Mas há tanta gente no mundo e tão pouca vontade em ouvir a gente. Todos querem dizer algo e esperam em resposta algo curto e sem arrepios do lado de cá. Esperam que eu abra sorrisos enquanto aceito a crença de que o amor não é uma alternativa possível.

Esperam que eu tenha ideia sem brilho nos olhos e que me sente por horas a fio na mesma cadeira sem que meu pensamento, aos poucos, cesse de jorrar. Há barulho demais no mundo e esperam que a gente não enlouqueça enquanto a rotina da cidade nos arranca qualquer vontade de criar. Aos poucos, descrente, andei sozinho por todos os becos e bares da cidade. Não sabendo aonde ir, tornei-me apenas mais um louco. Alguns vazios acertam de uma vez o estômago.