Lá de cima do prédio, preenchida por todo silêncio do mundo, esvaziava o tempo enquanto comia sem parar. Palavras e pães, para esquecer do tédio. A cidade parecia maior que a verdade quando vista de cima e se empenhava em mostrar alguma altura entre os prédios, pequeninos quando vistos de baixo. O sol batia com a mesma força que se espalhava o vento, criando uma sensação de calor refrescante que confundia os sentidos. Mordia os pães e punha de lado por algum tempo as palavras. O corpo de pé olhava longe e reforçava a ideia de um dia poder voar. Mantinha ali os olhos fechados, sentindo o vento quente da tarde lamber o rosto e permitia se esquecer do tempo. Abria os olhos e forçava o foco apenas para comer palavras. Espalhadas em diferentes ritmos pelo papel, a combinação apressada de letras se transformava em refúgio de sonhos.

Folhear as páginas fazia um barulho que lembrava de casa, uma casa que transitava por onde transitavam todos os ruídos em forma de letras. Os prédios faziam uma linha reta quando vistos no horizonte, como uma superfície plana para receber qualquer história notável. Chegava devagar bem na beirada e apoiava as mãos na parede baixa, suja, áspera. Queria voar. Enquanto isso, olhava de cima um ou outro indivíduo desajeitado em sua miniatura. Era estranho demais perceber o tamanho inútil e desimportante dos homens que transitam no tempo. Miniaturas sem voz àquela altura, preenchidos por suas pequenas histórias breves que se misturam na multidão. Alguns punhados de café, desejo, repulsa e andanças poderiam resumir facilmente sua humanidade breve e instável. Se eu voasse ninguém saberia. Acho que ninguém sabe realmente coisa alguma sobre nós. Terminou os pães, largou mais um tanto as páginas, um tanto de sol lhe apertava o corpo. Começavam a respingar as primeiras gotas de suor.

Passava as páginas, sobraram alguns pedacinhos de pão pelo chão e logo foram comidos pelos pombos. Comiam e logo voavam em uma dança sem fim. O sol se tornando mais rarefeito e aquela fome de tudo aumentando. Quanto pães são necessários para preencher o espaço vazio? Sem calor não havia incômodo, só o sabor dos instantes calados. Olhava outra vez lá embaixo, bem devagarzinho, gente passando sem rumo e sem nexo. Há gente demais, barulho demais, impossível querer abraçar todos os corpos sozinhos. Queria abraçar um corpo, queria guardar um punhado de sol e morder outro tanto de pão. De noite todos os bichos se transformam em vazio.

Busquei a casa que transitava entre as folhas e um pouquinho mais de mistério, criação ou verdade. Saber mais histórias. Ao menos aquelas, nas páginas, podiam se qualificar como uma existência que faz falta. Um registro expandido no tempo, não há como dispensá-las de seu próprio pertencimento. Indispensáveis, mesmo que acompanhem a primeira, a quinta ou trigésima quinta de café. O tempo não consegue lhes esvaziar de sentido. O vento aumentando e a mastigação constante, dedos entre páginas. O sol se pôs e, enfim, ela pôde voar.