O barulho do ventilador, o tic tac insistente do relógio e algumas folhas de papel já antigas. Rabiscadas. O primeiro diário foi picotado. E o segundo, terceiro, quarto, todos eles. Não me lembro quantos. Uma vontade dilacerante de não se deixar revelar ali, em meio a tantas linhas. Entre palavras, a pitada de sim envolta pelo não que dá o gosto final do mistério. A escrita não viria como um lugar de exposição, ao contrário, um lugar de recolhimento, ainda que exposto. Contraditório? Assim o são todos os seres, todos os peitos, todas as sensações. Ai daquele que se disser retilíneo. Vai ver que algo de si morreu e vagueia assim, em linhas retas. Uma pontinha pequenina de desassossego, e então a pausa completa, a certeza, o susto, a fuga entorpecida pelo gosto do medo. Pêlos, peles, poros e papilas definitivamente apanhadas no mais completo surto de prazer. Suspiro calado, olho arregalado, pé na pontinha. Não bate a porta. Observa a lua e espia demoradamente a janela. Correu o tempo. Troca de calçada e limpa a poeira dos pés antes que te grude até nas entranhas. Tarde demais, correu o tempo. Toma um punhado de algo quente, mas já é calor lá fora, não importa, assim esquenta mais. Deixa suar até a última gota de sal da pele. Deixa o vento bagunçar os cabelos antes que te grudem na cabeça tal qual coisa velha. E assim voaram. E o tempo? Correu.