Qualquer tipo de peso, em todo tempo, sempre me angustiou. Eu buscava, fervorosamente, a leveza de todas as coisas, como naquelas manhãs ensolaradas de feriado, sem tempo ou compromisso algum. Mas as coisas pesam. Sempre sentia o peso de tudo, principalmente o meu próprio. E talvez, por isso, buscava alguma leve compensação, como esquecer a passagem das horas. A passagem do tempo é descontraída quando se esquece, mas assusta extremamente ao ser notada.

Já o peso da palavra, em todo tempo, sempre me encantou. Ele me atraía por ser, de alguma maneira, docemente definitivo e descompensado. Não há volta. Era essa a sensação de estar leve que eu buscava. A gente carrega nos olhos o peso e a leveza de toda palavra que já sentiu e ouviu, cada uma faz parte de quem cada um é. Como a poeira que a gente carrega de todo lugar que passou.

Esse peso não me pesa, apenas me firma os passos. Deixo-me aqui àquele tempo farto de primeiras sensações, ainda que tardias. Aos sustos do início, aos escorregões do não saber e à língua, que teimava em dizer aquilo que ainda não sabia transformar em poesia.

Entre o tempo, quando criação

Peguei todo o amor que de surpresa senti e transformei em toda a poesia que devorei com vigor. Digeri desejos de saudade e novos olhos de vontade intacta. Peguei todo o amor que de surpresa senti e transformei em cada novo e gostoso pedaço meu que encontrei, devorei com a boca insaciável de quem quer saber-se seu. Digeri-me com desejos de agridoce e, que loucura, mais amor. A criação é uma paixão permanentemente questionada.

Criar é a maneira mais honestamente viva de sentir. A criação acontece no momento em que transbordamos as mais escuras dores e os mais bonitos amores. Existe um pequeno momento em que nos desprendemos da necessidade de guardar com cuidado a própria essência e deixamo-nos transparecer entre algo que mostre um pouco daquilo que carregamos de mais forte. A criação é uma espécie de vida própria, agitada demais para manter-se em lugar fechado. É preciso então, em meio ao rebuliço, transbordar.

Ela era meu próprio eco idealista e surreal, meu ponto idealizado, meu desejo persistente. A imagem projetada em minhas próprias invencionices. Nos encontrávamos quase todas as vezes em que eu conseguia ficar plenamente só. Eu a amava, sempre a amei. Amo-a como amo a liberdade de poder estar em completo silêncio.

Foi ela, aliás, quem me ensinou tudo o que eu sei sobre o silêncio, saíamos ao vento para pensar amor e solidão. Eu achava bonito o amor, ela achava bonita a solidão. Cutucava-me, delicadamente, em cada pedaço que tentei esconder. Fui aos poucos tornando-me cada vez mais ela, enquanto ela se tornava cada vez mais eu.

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