Há quase cinco anos atrás eu me formava em jornalismo e, enquanto terminava os preparos para apresentar a minha monografia de fim de curso, estudava novamente os conteúdos do ensino médio, esquecidos ao longo dos últimos 4 anos de graduação. Defendi o tal trabalho final de curso em jornalismo e com algumas semanas de diferença entrei novamente na graduação, dessa vez em Artes Cênicas. Era eu novamente caloura, agora nos corredores claros e cheios de janelas de vidro do Instituto de Artes da UnB. Vi meus colegas de comunicação se prepararem para entrar de vez no mercado enquanto, do outro lado, eu tomava coragem para encarar os novos anos de universidade.

Sentia-me velha ao lado daquela porção de rostos novinhos, recém-saídos das cadeiras e salas de aula das escolas brasilienses. Tive receio, mas a decisão já havia sido tomada anos antes e eu sabia, passar pelas salas de aula de artes cênicas era necessário. A vida se dividiu em duas. Eu passava as manhãs a sujar as roupas e os pés ao rolar no chão durante os exercícios de expressão corporal e rapidamente me limpava como era possível para vestir as roupas de trabalho. A camiseta dava lugar às blusas e vestidos e os chinelos entravam na bolsa para dar lugar aos sapatos. Os rostos novos do departamento me davam um novo impulso vital, como se eu ganhasse de bandeja alguns anos a mais de juventude.

Alguns bons anos se acumularam na UnB entre a comunicação e as artes, criando a melhor mistura possível entre os dois universos quase opostos e complementares. Nessa semana o segundo ciclo se fecha e entre muita correria e dificuldade (rapaz… que difícil é trabalhar e completar uma graduação simultaneamente) a sensação que fica é de completude. Que outros ciclos se abram. E quem quiser conferir o final desse, estaremos em cartaz de 23 a 28 de junho, no Museu Vivo da Memória Candanga, com Os Mamutes. A turma escolheu esse, que é o primeiro texto na carreira dramatúrgica de Jô Bilac. Na peça, Leon se atrapalha todo na hora de tomar suas decisões e morre de medo da chegada brusca da vida adulta. Mal sabe ele que, entre trancos e barrancos, a gente consegue se virar bem do lado de cá.

Confere aqui um pouco mais da história e aproveita para passar lá no Museu. 


Versão brasiliense do espetáculo Os Mamutes transforma museu em palco

Inspirado no texto do premiado dramaturgo Jô Bilac, brasilienses fazem releitura da peça Os Mamutes e ampliam os espaços para além da caixa cênica tradicional

O capitalismo desenfreado, o consumismo exacerbado e os desafios da vida adulta compõem o texto atemporal de Jô Bilac, que aborda questões sociais e políticas através de uma linguagem cômica e musical. Para levantar essas reflexões, o grupo de formandos em artes cênicas da Universidade de Brasília escolheu se apresentar no tradicional Museu Vivo da Memória Candanga, importante espaço cultural brasiliense que busca novamente atrair vida e movimentação aos seus acervos e exposições.

A temporada de Os Mamutes vai de 23 a 28 de junho, sempre às 20h, no Museu Vivo da Memória Candanga e um ônibus transportará os espectadores em todas as sessões. O ponto de encontro para a saída é no departamento de artes cênicas da Universidade de Brasília. Com texto de Jô Bilac e direção de Rita de Almeida Castro, o espetáculo tem coordenação de cenário e figurino assinada por Roustang Carrilho. Vale lembrar que o teatro Helena Barcellos, localizado no departamento de artes cênicas da Universidade, continua fechado, sendo um dos pontos de incentivo para a escolha de um espaço alternativo de apresentação.

A concepção do espetáculo parte de processos criativos diversos, com improvisação cênica, foco no trabalho textual e na relação entre a comicidade de seus personagens e as canções que os acompanham. A imaginação um tanto sanguinária de Isadora, aliada ao tom misterioso dos demais personagens, criam uma atmosfera de estranheza, impulsionada pelo ambiente noturno e silencioso do Museu. Em cena, 14 atores buscam mostrar os medos, anseios e revoltas de um homem que transita da juventude para as obrigações do mundo governado por dinheiro que o espera na vida adulta.

A partir desses aspectos, a diretora destaca: “Você tem fome de que? Estamos sempre povoados por informações e consumo atualmente, conectados em excesso. A peça fala da relação do homem com o sistema e questiona até que ponto a gente segue os padrões, os códigos, a normatividade e até que ponto a gente consegue romper e transgredir esse contexto. Ela fala de como cada um se coloca em sua própria vida. Até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas?”.

Pode-se dizer que o espetáculo se coloca como crítica aos costumes de uma sociedade consumista e de uma infância prematura, preenchida por toques de perversidade. “Os Mamutes foi minha primeira peça, escrevi com 18 anos, era uma fase de escolhas. A peça veio como uma tentativa de organização daquele novo mundo que viria pela frente. Acho que ela fala sobre isso, essas expectativas sobre o futuro de forma ainda romântica com o protagonista e como ele vai amadurecendo com o processo doloroso e maravilhoso da vida”, afirma Jô Bilac.


O enredo

A mente imaginativa e acelerada da menina Isadora cria o cenário ideal para que o jovem e inocente Leon tenha seu primeiro encontro com a multinacional Mamute´s Food. Desempregado, Leon tenta a sorte na empresa alimentícia mundialmente conhecida por seu delicioso e incomparável hambúrguer de carne humana. Se puder abater um Mamute, um cidadão comum que não faça falta alguma à sociedade, o emprego será seu. Em seu caminho, Leon conhece outro lado de si e encontra personagens que representam diferentes arquétipos da figura humana contemporânea. Resta saber como ele chegará até o fim. Quem decide é Isadora, que aos 10 anos, mostra que caminhos podem tomar a imaginação fértil de uma criança extremamente informada a respeito da sociedade atual. Enquanto isso, antes que a carne do hambúrguer terminasse, o governo liberou a caça aos mamutes. É melhor se apressar, que diferença você faz em seu próprio tempo?

O dramaturgo

Com mais de dez anos de carreira no teatro e tendo ultrapassado 20 textos montados, o dramaturgo Jô Billac é reconhecido por peças premiadas como Rebu e Conselho de classe. O espetáculo Os Mamutes é resultado da primeira criação dramatúrgica do autor que tinha, na época, entre 18 e 19 anos. Suas montagens se caracterizam por mostrar certa frieza em seus enredos e personagens. O autor faz parte do grupo daqueles que ainda buscam entender o processo de produzir dramaturgia atualmente, experimentando novas possibilidades a cada texto. Bilac é um dos fundadores e integrantes da Cia. Teatro Independente, no Rio de Janeiro, onde conseguiu espaço para dar vida às suas criações contemporâneas. Em outros espetáculos do dramaturgo, assim como em Os Mamutes, o teatro aparece como um espaço possível de resposta ao reflexo da sociedade atual, provocando experiências e possibilitando novas opiniões. É possível perceber em sua obra as características de um autor que busca os conflitos e as narrativas de seu próprio tempo. Com textos atuais e temas pertinentes para a sociedade contemporânea, o dramaturgo, ainda jovem, encontrou seu espaço de experimentação na criação teatral.

A parceria com o Museu

A ideia é utilizar o rico espaço do Museu e aumentar sua visibilidade, atraindo novos visitantes. O espaço se caracteriza como um dos marcos da capital e já foi sede do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira. O acervo do Museu é composto pelas edificações históricas, peças, objetos e fotos da época da construção da nova capital, distribuído pela exposição permanente “Poeira, Lona e Concreto”, que narra a história de Brasília desde os primórdios de sua construção até sua inauguração em 1960.

 


Serviço

Espetáculo Os Mamutes

Datas: De 23 a 28 de junho

Horário: Sempre às 20h

PONTO DE ENCONTRO DO ÔNIBUS: Departamento de Artes Cênicas da UnB, às 19h

Local: Museu Vivo da Memória Candanga (Via EPIA Sul, SPMS, Lote D – Núcleo Bandeirante) Entrada Franca

Classificação indicativa: 12 anos

Duração: 90 minutos

 Informações para a imprensa: 9 8114-1706.

Ficha técnica

Texto: Jô Bilac

Direção: Rita de Almeida Castro

Coordenação cenográfica: Roustang Carrilho

Elenco: Ana Luiza de Franco, Amanda Moraes, Breno Ricciardi, Breno Uriel, Bruno Pupe, Camila Franco, Gabriela Vieira, Guilherme Mayer, Kyll Nunes, Isabella de Andrade, Matheus Sobrenome, Natalia Solorzano, Nina Roberto e Tainá Cary.

Iluminação: Yuri Sobrenome, Luisa Labbate

Figurinos: Bruno Pupe e Natalia Solorzano

Cenário: Ana Luiza De Franco, Bruno Pupe e Natalia Solorzano

Maquiagem: Camila Franco e Kyll Nunes

Coordenação de encenação: Roustang Carrilho

Direção musical: Brenno Ricciardi, Glauco Maciel e Guilherme Mayer

Produção: Nina Roberto e Kyll Nunes

Preparação vocal: Wemmerson Reis

Preparação corporal: Débora Dodd e Márcia Duarte

Assessoria de imprensa: Isabella de Andrade

Apoio: Museu Vivo da Memória Candanga, VITRI, Rosane Stuckert