Eu não me lembro do instante exato em que aquele caos do teatro adolescente começou a tomar alguma proporção de trabalho. Caminhávamos infinitamente pelo espaço, transformando o exercício básico em algo glorificante e indispensável a qualquer início de criação. Sujávamos os pés, suávamos o pescoço e controlávamos os hormônios para baixar a crista aos gritos do professor. Como uma espécie de vingança ou com o impulso básico de nos fazer desistir, o diretor gritava, avermelhava a própria cara e berrava constantemente a plenos pulmões.

Eu, controlada em minha própria insegurança, não movia um músculo sequer e executava com prontidão todos os comandos ordenados. Olhava com um tom complacente de pena para os meninos desajeitados e medrosos, os que paralisavam o movimento ao menor sinal de xingamento, os que esqueciam a cena e interrompiam a fala no teatro quando os nervos começavam a chegar. Não resistiriam muito. Tombariam após a primeira montagem.

Crescíamos assim reunidos em algo parecido com um grupo forte. Um comboio de adolescentes que começava a crer demais no próprio talento e na certeza de que sobrevivia sem maiores preocupações aos olhos ferrenhos de qualquer diretor carrasco. Éramos a nata. As pedras cuidadosamente escolhidas pela peneira dos figurões de outro tempo.

O impulso do teatro amador

Nós nos firmávamos entre o palco e os bastidores do teatro com a certeza clara de que, em um dia breve, seríamos nós os responsáveis pela plena revolução daquele mundo. Jovens magrelos, rechonchudos ou desajustados que se apoiavam sem medo na vocação da arte. Parecia nobre. Caminhar acompanhado de um sonho, desejar o tempo aliado a um constante propósito. Um afago em qualquer alma sonhadora que se via perdida entre as ruas de uma pequena cidade.

Sem receio nos embriagávamos com o líquido sagrado de Dionísio sem nem ao menos precisar se embebedar. Puro delírio de quem tem vontade. Creio que nos juntávamos ali para expurgar os próprios desejos e expandir as paredes do mundo que nos cercava. Subíamos ao palco com a força de um jovem leão. Entrelaçávamos as mãos para dar significado ao rito.

Costurávamos tecido, batíamos martelo e erguíamos juntos imensos cenários. Recriávamos os dias para mostrar ao mundo como o mundo deveria ser. Aquecíamos a garganta para falar alto as verdades, virávamos noites para encontrar o ponto certo de cada personagem e acreditávamos naquele espaço como o instante único e possível para mostrar a necessidade da transformação. O teatro se esbalda entre a vontade suada dos mais jovens.

A fome de mundo

Uma fome de mundo nos toma toda e qualquer sensação. Esvazia o estômago, faz roer os dentes, faz apertar os braços e arranha cada centímetro da pele. Animalesco e voraz como toda e qualquer sensação incontrolável. Toma-nos o medo, o certo e o incerto, o amor e a razão, o sublime e o lastimável. Faz querer sujar os dedos, lambuzar os rostos, correr sem rumo até o último suspiro que nos reste no pulmão. Tira-nos a sanidade, atravessa pontes, ruas, becos e gramados. Quer nos fazer sentir amor, sonhos, vontades e calmarias, enquanto atravessa-nos o peito até o ponto em que nos deixe incapaz de amar.

O suspiro da fome é curto e também, seco, inaudível, quase indispensável. Faz suar a nuca e tremer a pálpebra, faz sorrir de sarcasmo os homens e fechar os olhos de desespero as meninas. Transforma um segundo qualquer na última possibilidade capaz de fazer valer todo antigo e futuro passo. Tem apetite voraz e come as horas sem deixar um único pedaço entre os dentes.

Faz desacreditar as eternidades em um único dia e lembra, como um adulto exausto, que não há crença que se faça válida entre os olhos opacos do desamor e a calmaria um tanto alvoroçada do amor. Observamos sentados ao último vestígio do que idealizamos em um curto espaço de tempo. Ainda assim, tentaremos outra vez a travessia. Quantos pães são necessários para preencher um coração vazio? Esqueça os pães e farte-se daquilo que realmente te desperta fome.  Lançaremos os corpos despreocupados à maresia do tempo.

Somos poetas de um corpo quase invisível e desenhamos alguns versos ruins para tapear o tempo, que ainda tenta nos embaralhar. Enquanto corpo, respiro, quero alcançar outra vez o corpo e enquanto verso, inspiro, quero alcançar outra vez o que houver para nos  inventar. A realidade é crua em excesso, deixe algo de inventivo a lhe temperar.


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