Sou mulher e sou artista.
Lembro-me da empolgação em que chegávamos ao 4º semestre de jornalismo da faculdade de comunicação. Na época, já como estudante da UnB, eu havia acabado de completar 19 anos e decidi com convicção onde queria começar meus rumos jornalísticos: estagiando no MinC. Eu me inscrevi e fui chamada, no entanto, na semana seguinte, decidi pelo trabalho em uma empresa que me pagaria o mesmo preço por duas horas a menos. Ah, as decisões estudantis… A causa também era boa; como universitária, estagiária e atriz amadora de oficinas teatrais brasilienses e musicais, o tempo devia ser sempre milimetricamente cronometrado. Mas lembro-me ainda das certezas que me levaram a procurar o MinC, eu escolhia o jornalismo para manter firme meu propósito encabeçado pelas artes: salvar o mundo! Afinal, quem não quer salvar ao menos seu próprio micro-universo?

O plano parecia perfeito. Como artista, seria possível utilizar minhas experiências entre textos e palcos para tratar de maneira digna o jornalismo. Como comunicóloga, eu teria a oportunidade de aliar as energias criativas à disciplina e ao movimento rápido e constante das matérias, textos, pautas e apurações. Ainda me apaixono algumas tantas vezes pelo jornalismo, encho o peito para tentar contar, em uma página de papel barato, a história mais bonita que minhas mãos puderem alcançar. No entanto, já não me chega como um ponto de certeza ou ato heroico. Há falhas, e muitas. A vida adulta (que fardo alcançá-la) mostra as incertezas da profissão, as crises, as parcialidades. Há que se manter digno para não sucumbir. E sim, muitos, nos manteremos.

Volto ao MinC. Que sensação bonita ter percorrido um pouco dos seus corredores munida da certeza intacta de que ali, o mundo haveria de se fazer validar. A arte salva. Pode ser o artista, talvez, uma criança que não cresce e carrega ainda as esperanças doces de, a partir da criação e execução de seus próprios sonhos, fazer o mundo mudar. Tenho ainda hoje a certeza plena (e talvez ingênua) de que pela arte será sempre possível que nos escutem toda e qualquer voz. É na cultura que encontro a possibilidade de expandir mentes, fazer crescer criaturas vivas, dignas, pensantes, donas da própria voz. A cultura traz dignidade. É através dela, em todas as suas formas, saberes, cantos, ritmos, cores, risos e tradições, que me parece possível ouvir a voz de todo e qualquer lugar. É nela que se grita a voz do preto, branco, índio, pardo, do homem, hétero, mulher, gay, pobre, do lúcido e do alucinado. Foi nela que me criei e é ainda nela que me crio, me sustento e me reconheço. É por ela que devemos permanecer e em nome dela que não iremos nos calar. A crença do artista é maior que o desalento de um sonho que parece terminar. Permanecemos.