Encarcerada por sorrisos, entrecortada por insistência em sonhos. Maria, como tantas, impulsionava o próprio passo a caminhar descalço por alguns dias em vão. O cabelo preso, a perna afobada, o olho doído e a boca um tanto rachada. Passa logo um batom, do bem forte, uma sensação de cor espalhada pelo rosto suado de tanto apressar o passo. Pois então, corre, que há ainda essa mania de levar as horas como uma disputa inadiável qualquer. Apertava o olho todo dia, se lhe espantasse o sol, o vento, a poeira, o tempo já fechado ou qualquer outra possibilidade que ao céu ali cabia. Empurrava outra vez o passo, chutava fora uns restos de coisa seca, e caminhava depressa, que calçada quebrada nunca foi de fazer tropeçarem os pés empoeirados de Maria. E abre outra vez as cortinas, com firmeza e um certo asco de se queimar novamente ao sol, que sem amores não há pele que sustente uma chegada do verão. Um suor solitário que lhe escorria ao menor sinal de ação. E que Maria seria? Das mais tortas, um tanto entorpecente e por demais calada. Acompanhava o ritmo de fora com a mesma insensatez que permitia acelerar outra vez o ritmo de dentro. Displicente ao passado, rasgava toda folha que, por algum infortúnio, lhe escorregasse por entre os dedos. Suava outra vez, resignada. Assumiu o próprio tato descontrolado e fechou outra vez as cortinas. O silêncio é a única verdade fiel. (…)