O Chico chegou de mansinho, pegando bem naquela última pontinha de crença que a gente guarda. Eu me lembro de permanecer ali, peito calado, a pele quietinha, o olhar desconfiado. E Chico de lado olhando. O olho espichado e o andar devagarzinho, feito bicho bonito quando fica interessado. Pegou um papel e anotou a repetição. Eu olhei uma, duas, três, cem vezes. Os olhos me puxavam para o lado feito cheiro de pão bem quentinho ao amanhecer. Tirou medo, levou embora o tempo fechado, deu um abraço, papeou os segredos, falou que era viajado. Chico era homem quieto na primeira chegada do tempo, mas soltava todo o riso quando a hora caminhava. E aí era estrada sem volta, me bagunçou os cabelos, sacudiu as certezas, puxou os receios, arrancou o medo e a vaidade. Eu me lembro de vestir assim um biquíni, uma roupa curta, um cabelo amarrado, um chinelo esquisito e um salto bem arrumado, enquanto Chico me olhava com os olhos de quem me presenteava com uma satisfatória porção de confiança. Eu brilhava os olhos e ria solto, feito menino que abre os pacotes coloridos na noite de natal. Ele guardava um bem querer grande num terraço logo abaixo do céu. A gente é tanta humanidade junta que parece quase se rasgar. Um cochilo no peito vinha sempre a salvar o dia e nos fazer respirar aliviados. Dormia rapidinho, parecia mágica. As orelhas cobertas e o rosto risonho de quem dizia tudo ao se calar. Chico não era gente de meias-certezas ou quase verdades, dizia tudo assim, sem pestanejar. Eu arregalava os olhos e deixava a pele quente tomar conta de tudo ao redor. Tão bom sentir.