unnamedLi 1984 pela primeira vez agora, em 2016. Acredito que a leitura tenha chegada a mim no momento certo. Não tenho problemas em ler clássicos (e contemporâneos, históricos, poéticos ou o que seja) no tempo em que me desperte atração. Talvez, as ideias com ares proféticos do livro teriam me parecido um tanto quanto distantes e apocalípticas há alguma tempo, no entanto, a leitura me pareceu facilmente conectada com diversos pontos cotidianos. Vale destacar que George Orwell não fez profecias ou previsões específicas, aliás, esta não parecia ser sua preocupação. O que me transparece através do livro é a preocupação com um futuro possível caso os regimes totalitários presenciados pelo autor se proliferassem e se expandisse ao redor do globo.

Orwell parecia compreender, em seu tempo, que o pensamento fascista não havia desaparecido e que, talvez, ainda estivesse por alcançar seu ápice.  Passo as páginas e me lembro da quantidade de pensamentos autoritários, fascistas ou excludentes que se proliferaram nos últimos tempos e percebo que o escritor-quase-profeta, poderia estar certo em suas imaginações. O regime criado por ele para representar o Grande Irmão exibe diversos elementos de regimes fascistas, como um ditador aparentemente carismático e o controle do comportamento. Vale lembrar que não há liberdade sem o exercício de expressões e pensamentos próprios. No livro, assim como fora dele, o poder totalitário se dá pelo amplo controle da população.

O romance dialoga com seus leitores em uma linguagem cotidiana do discurso político e vemos que é através do conceito de duplipensamento (a capacidade de acreditar em verdades contraditórias ao mesmo tempo) que o partido consegue exercer seu controle.  É este conceito que está por trás de uma das grande ironias criadas no romance: o nome dos três superministérios. O Ministério da Paz promove a guerra, O Ministério da verdade conta mentiras e o ministério do Amor pratica tortura e chega a matar alguns daqueles que considera como ameaças – outra vez, uma prática que parece comum em nosso próprio cotidiano atual: dizer o oposto daquilo que se pratica.

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O autor George Orwell

O romance entre Winston e Julia conduz a narrativa e o reencontro do casal após suas confissões e traições forçadas no Ministério do Amor, pode ser decepcionante para o leitor em busca de um final feliz. O final mostra o último cenário que gostaríamos de ver e Winston, que finalmente teve suas próprias ideias tomadas pelo partido, se vê entre o ódio e amor pelo Grande Irmão. Outra vez, o poder do duplipensamento. A leitura é boa e a história que conduz a narrativa do romance  não produz grande reviravoltas além do esperado, afi
nal, o foco de Owell parece ser a escrita de um romance que se coloca entre a linguagem política cotidiana, para assim, alertar o leitor de seu próprio tempo e dos muitos que viriam a seguir.