Para dar continuidade ao espaço de reflexão e diálogo através das possibilidades criadas pelo teatro, hoje oCiclorama trouxe uma entrevista cheia de boas ideias, caminhos e discussões criadas pela presença das artes cênicas com Rodolfo Godoi. Ele é ator e mestrando em sociologia e busca em seus estudos um diálogo entre o poder transformador da arte e a sociedade. O ator destaca a crença de que o teatro tem o poder de construir mundos e dar corpo e forma a utopias. Além de promover novas realidades, o teatro carregaria a possibilidade de revelar o mundo em que vivemos, como uma lupa de aumento. Aproveita e desfruta aqui a leitura.


daqui-a-pouco_apresentacao-37Acredita que o teatro é um espaço de reflexão política e social? Como essa relação pode acontecer? De que maneira o teatro pode instigar mudanças?

Essa é a minha maior crença. O teatro tem o poder de construir mundos. Fazer da mentira a mais pura verdade, e transformar o que antes era impossível em obviedade, mesmo que apenas por alguns instantes. É no palco que muitas utopias tomaram forma e corpo. E mais do que isso, pois ao mesmo tempo que o teatro pode propor novas realidades, também revela o mundo que vivemos, como uma lupa que aumenta a realidade, mostrando as belezas e a mazelas de sermos quem somos e vivermos da forma que vivemos.

Acredita que o teatro ainda encontra esse espaço de discussão política e social atualmente?

Sim. O teatro pode ser espelho da realidade. Mas não no sentido de mostrar como ela é, e sim por mostrar que a vida como a vivemos não precisa ser como está sendo. O instante de verdade da cena desconstrói as verdades que temos do mundo. Porque nos chama para a reflexão e nos faz perceber além do que nos é dado. Isso aplicado a política é fundamental para que a discussão extrapole os fatos e apresente saídas possíveis tanto do ponto de vista político como social.

Qual a importância do teatro na sociedade atual? Ele perdeu seu lugar em meio a tantas opções?

O teatro só se realiza no encontro, na co-presença. Experiência necessariamente coletiva. Quando nos afogamos nos smartphones, nas redes virtuais, e nos jogos eletrônicos olhar para o outro se torna algo quase sagrado. Em que outro momento temos a liberdade de desligar os celulares? O teatro é uma arte milenar, presente em diversas culturas, em tempos e espaços distintos da história humana. Ele não disputa espaço com as outras artes, é único. A experiência da cena viva é só dela.

O que mudaria em uma cidade e na comunidade que nela vive com a presença de diversos espaços teatrais e em uma cidade com ausência destes espaços?

Os aparelhos culturais de uma cidade são fundamentais. Todas as pessoas têm o direito de se expressarem e de acessar a arte. E de fato, sabemos que há arte mesmo onde não há suporte para ela. Mas isso jamais justificará a omissão do Estado. É urgente que o poder (do) público permita que as pessoas se reconheçam através de suas próprias expressões. Que possam ter acesso ao teatro, esse momento tão especial que nos suspende do fluxo cotidiano maçante.

Uma cidade que não pode se ver nos palcos, nas telas ou nas galerias está fadada a ver outros palcos, telas e quadros. Valorizará o que é fora e depreciará o que é de dentro; estará colonizada culturalmente. No Distrito Federal esses aparelhos culturais estão concentrados nas áreas centrais. Nas demais regiões administrativas o espaço da rua é brutalmente perseguido pelas forças policiais, as escolas enfileiram a todas e todos para reproduzirem conteúdos.

Em muitos lugares as igrejas são os únicos espaços onde os jovens podem acessar e produzir arte. Não é raro quem narre o primeiro contato com o teatro através delas. Mas a criatividade está em todas as pessoas e deveria correr livre em todos os espaços. Inclusive, as últimas eleições do Rio de Janeiro são sintomáticas de tudo isso.

cameliaAcredita que a cena teatral brasiliense consegue se reinventar e se manter viva, mesmo com a falta ou diminuição de bons espaços?

Essa tem sido uma grande lição do teatro do DF. A invenção insiste e persiste. Onde foi impedida ela corrói como ferrugem pelos cantos e pelas frestas. O teatro não é uma instituição, é uma prática. Está nas ruas, nas galerias, nas salas de aulas, nas estações, nas boates, nas praças, nas casas, apartamentos, kitnetes, barcos, ônibus e até nos palcos!

Você já teve alguma experiência em cena, com a plateia ou depois de algum espetáculo, em que pôde notar essas transformações em pessoas?

Não sei se posso falar em transformação. Mas se o espectador for afetado, da forma que for, o teatro cumpriu seu papel. É justamente sobre isso que me debruço atualmente no mestrado em Sociologia. Estou pesquisando a performatividade de gênero do cantor Ney Matogrosso. Afinal, como uma pessoa que constrange tão fortemente as normas de gênero pode ser alçada ao patamar que Ney foi? Como isso mexe com a nossa cabeça? Não acho que existam mecanismo de mensuração exata do poder transformador da arte, mas com certeza, não se passa ileso a ela.

Qual foi a experiência teatral mais rica que você já teve e de que maneira o teatro já te transformou?

O teatro é rico até quando é ruim. Demonstra como é difícil fazê-lo, exige estudo, trabalho, dedicação etc. Mas claro, alguns espetáculos nos marcam mais fortemente. Para mim são aqueles que tratam do mundo político e social – da coletividade – de uma forma nova, inteligente, e em especial que consiga se comunicar com a plateia, o que não significa ser ‘bobo’ ou ‘fácil’. É muito difícil chegar ao outro. O teatro me desfez certezas.