Adriana Lodi, um dos grandes nomes da cena cultural brasiliense

Qual o espaço do teatro e da criação em meio a um cotidiano tão conturbado? A arte perde sua importância quando a sociedade e a política pedem resoluções mais urgentes ou a cultura aparece justamente como aliada no caminho para encontrar soluções? Para pensar um pouco o espaço das artes cênicas em nosso tempo atual, conversei com Adriana Lodi, uma das grandes representantes do teatro do Distrito Federal.

A atriz conta com mais de 20 anos dedicados criação cênica. Conhecida por sua dedicação ao ofício e por sua dedicação em preparar novos atores na cidade, Lodi acredita que as experiências estéticas de fruição com o teatro, a música, a poesia, as artes performativas em geral, podem sensibilizar os sujeitos a criar espaços de reflexão, de ação e de transformação política e social. Para ela, algumas experiências estéticas promovem uma vertigem, deslocamentos; alguns autores e obras promovem até mesmo uma transformação física, um atravessamento emocional incontrolado, uma alteração na nossa percepção sensível, redesenhando trajetórias.

Acredita que o teatro é um espaço de reflexão política e social? Como essa relação pode acontecer? De que maneira o teatro pode instigar mudanças?

Sim. O teatro é um espaço tempo de encontro real e no presente, e esse encontro por si só já é político quando promove afetações entre os sujeitos envolvidos. É um espaço privilegiado que pode promover e operar mudanças significativas, principalmente no que diz respeito às suas práticas pedagógicas, pois no seu exercício cotidiano com a imaginação, com a criação de outros e novos mundos pode desenferrujar padrões e percepções pré-fixadas sobre quem se é e onde se está.
Acredita que o teatro ainda encontra esse espaço de discussão política e social atualmente?
As experiências estéticas, de fruição com a poesia, com a música, com o teatro, com as artes performativas em geral, com as obras visuais, podem sensibilizar os sujeitos e criar espaços de reflexão, de ação e de transformação política e social. Algumas experiências estéticas promovem uma vertigem, deslocamentos, alguns autores e algumas obras promovem até mesmo uma transformação física, um atravessamento emocional incontrolado, uma alteração na nossa percepção sensível, redesenhando até trajetórias. Provocam um preenchimento, um entendimento da experiência como presença no mundo, ou do eu no mundo. Nos embriagam, nos colocam diante de abismos, diante de nós mesmos. Para alguns isso se dá com um romance de Clarice Lispector, para outros com filme de Andrei Tarkovski, ou com a música de Richard Wagner, ou ainda com um grafite que te pega de surpresa no meio da rua, para outros de diversas gerações vai ser a música do Pink Floyd.

A atriz em O cabaré das donzelas Inocentes

Qual a importância do teatro na sociedade atual? Ele perdeu seu lugar em meio a tantas opções?

Acredito que o teatro nunca vai perder o seu lugar, principalmente por ser de outra ordem ,

da ordem do encontro, da ordem da presença.

O que mudaria em uma cidade e na comunidade que nela vive com a presença de diversos espaços teatrais e em uma cidade com ausência destes espaços?

Ampliar as possibilidades de espaços culturais de qualquer natureza promove estímulo a criação artística, estímulo a trocas estéticas, a diálogos e encontros.

Acredita que a cena teatral brasiliense consegue se reinventar e se manter viva, mesmo com a falta  de bons espaços?

O teatro escapa sempre, se reinventa, sai em busca de outros espaços, espaços não convencionais, invade as ruas, as casas, os becos. E a cena teatral brasiliense vem desde sua origem, ocupando Galpões, auditórios, corredores, praças, escolas, ônibus e até banheiros. Como exemplo temos o sucesso que o Entrepartidas do Teatro do Concreto está fazendo no Rio de Janeiro.

Crédito: Milena Vasconcelos/Divulgação.
Atores Adriana Lodi e Murilo Grossi, na peça Os Fantasmas

Você já teve alguma experiência em cena, com a plateia ou depois de algum espetáculo, em que pôde notar essas transformações em pessoas?
Sim. Um dos exemplos mais potentes dessa transformação foi numa apresentação do Cabaré das Donzelas Inocentes (direção de Murilo Grossi e William Ferreira do texto de Sérgio Maggio) em Recife, direcionada para as profissionais do sexo. Após a apresentação tivemos a oportunidade de ouvuir depoimentos potentes dessas mulheres emocionadas por estarem pela primeira vez diante de suas próprias histórias e por isso diante de si mesmas.

 

Qual foi a experiência teatral mais rica que você já teve e de que maneira o teatro já te transformou?
O teatro foi um algo que me afetou, que me tirou do lugar, que penetrou em diferentes instâncias da minha estrutura e alterou definitivamente a minha organização, a minha auto-organização, a minha autopoiese. Instaurou uma percepção entre reprodução e criação, arrebatou o meu olhar para a potência de estar num coletivo e provocou uma disponibilidade, antes tímida, para o encontro com o outro e com as coisas do mundo. A cada trabalho que faço como atriz ou diretora é uma transformação na minha pessoa. E algumas (muitas) vezes, estar na platéia pra mim, é estar em fluxo de ser outra.