“O jeito de falar do brasiliense é uma característica que constrói a identidade dessa cidade tão nova. Inclusive é muito comum ouvir de amigos de fora daqui que a gente não tem sotaque. Mas eu acho que isso já é um jeito de falar muito próprio, um jeito que não é característico de nenhum outro lugar do Brasil. É neutro, mas tem expressões muito fortes.

2A ideia de colocar estas expressões da cidade de Brasília em cartões postais veio a partir do objetivo de pensar um pouco na identidade da cidade de uma maneira geral. A gente queria produzir um material com o qual as pessoas se identificassem pela fala e pelas expressões. Aí acabamos fazendo a coleção Aqui tem palavras, em que cada postal tem um jogo e cada jogo trabalha uma palavra diferente. Uma delas é a famosa véi, que é uma palavra que tem muitas entonações diferentes. Pode ser véi, véeei, véeeeeeeeei… E cada uma pode dizer alguma coisa muito específica e só quem é daqui realmente entende.

Fazendo como um jogo, fica mais fácil de despertar a curiosidade e a investigação das próprias pessoas. Na cruzadinha, por exemplo, tem umas palavras como agulhinha. Pouca gente sabe que, na tesourinha, a rua que dá passagem direto do Eixão para as quadras se chama agulhinha. Então as pessoas pegam o jogo e ficam pensando: ‘Que palavra é essa, não existe’… Mas enfim, ela existe. É uma forma de aprender também.

E tem as expressões que a gente fala para as pessoas de fora, que elas nunca ouviram falar, como só o ouro, chamar bicicleta decamelo. Não são só as gírias, mas uma espécie de vocabulário próprio da cidade.

Uma expressão muito comum de quem mora aqui também é Tô na ponte, um clássico dos migueleiros que avisam as pessoas que estão chegando em cima da hora. No jogo da forca, a pergunta é: “Um amigo te liga, na festa no Lago e pergunta onde você está. O que você fala?”. E você fala: Tô na ponte, porque inevitavelmente você vai ter de passar por ela.”

Ana Cecília Schettino

Designer, 25 anos, nascida e criada em Brasília, participa de um grupo que faz cartões postais que se chama “Aqui em BSB“. Brincando com as palavras, ela acredita que ajuda a construir a identidade de Brasília, uma cidade tão jovem.