Figura constante entre as listas de livros mais vendidos, as obras do gênero costumam atrair pela linguagem fácil e temas universais

Não é difícil encontrar listas de vendas literárias em que o gênero de autoajuda fique em primeiro lugar. As obras que prometem auxiliar leitores nas mais diversas esferas do cotidiano fazem sucesso nas livrarias e atraem até os menos acostumados a se perder entre as páginas. Se pensarmos pelo lado positivo, o acesso a esses livros, independente do grau de dificuldade ou estímulo, pode incentivar que seus leitores busquem outras obras, esquentando o mercado literário. Por outro lado, há um risco de que esses leitores consumam sempre o mesmo gênero, considerando esse tipo de leitura uma zona de conforto.

Conversei com o professor de literatura, escritor e leitor ávido Alexandre Pilati sobre o assunto e tentamos entender que motivos levam as obras de autoajuda a despontarem quase sempre entre as mais buscadas. A verdadeira literatura nos tira da zona de conforto, nos faz interrogar o mundo de um outro jeito e não nos conduz a respostas fáceis e supérfluas. Para Pilati, o mercado se retroalimenta e é possível pensar que há uma certa influência tanto sobre os produtores propriamente ditos quanto sobre os editores que vão procurar apostar fichas naquilo que está sendo mais bem recebido em termos comerciais.

Vários motivos podem influenciar leitores na hora de escolher que obra adquirir e no caso dos livros, como outros produtos culturais, a força do marketing e da propaganda é grande. “Poderíamos chamar alguns desses livros de leitura fast-food. Uma espécie de pacote já pronto e de fácil assimilação”, destaca o professor. A boa literatura seria mais genuína, sem se deixar influenciar pela moda vigente.

Alexandre destaca que as obras mais simples e acessíveis foram reconhecidas como populares ao longo do tempo. Entretanto, não podemos deixar de apontar uma especificidade de nossa época, que tem a ver com um mercado controlado, no qual também os produtos da cultura, leitura e literatura incluídas, passam por uma espécie de processo de pasteurização.

“Um livro religioso ou de autoajuda, nesse contexto, é uma mercadoria que explora a agonia da falta de sentido de nossas vidas no alto capitalismo. Ele passa a vender promessas vazias para pessoas que são estimuladas a sentir o nosso tempo de vida como vazio. Acho essa uma especificidade que pode ajudar a pensar a grande presença desse tipo de livro entre os mais vendidos durante tanto tempo”, destaca.

Entre os novos meios de circular a produção literária e fazer despontar novos autores, estariam as redes sociais. Muitos escritores independentes resistem nas trincheiras da rede social a um rebaixamento mercadológico da sua literatura. Para Pilati, as redes são como um ponto de fuga que pode proporcionar uma corrida em paralelo às leis do mercado cultural. Além disso, como professor, acredita muito no papel democrático da escola, que é onde o aluno pode tomar conhecimento de gêneros e tipos textuais que dificilmente serão apresentados a ele pelo mercado dos Best sellers.

A ideia é buscar novos gêneros e autores, iniciar leituras que se desenvolvem por estilos diversos e formar seu gosto próprio a partir de experiências diferenciadas. A literatura se retroalimenta e, quanto mais leitores, mais livros e autores poderão se desenvolver.


Alexandre Pilati
Nasceu em Brasília em 1976. É poeta, crítico literário e professor de literatura. Já publicou os livros de poemas sqs 120m2 com dce (2004); prafóra (2007) e e outros nem tanto assim (2015). Em 2009 publicou A naçao drummondiana um conjunto de quatro ensaios sobre a obra do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade.
É mestre e doutor em literatura brasileira pela Universidade de Brasília, onde é professor efetivo desde 2009. Realizou estudos críticos sobre a obra de Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Pier Paolo Pasolini, Francisco Alvim, entre outros.

Conheça:
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