No novo endereço de sua oficina José Perdiz pretende dar continuidade ao trabalho cultural que teve início ainda em 1975. Um dos importantes e tradicionais nomes do teatro candango, o mecânico e produtor cultural nas horas vagas, é dono de um dos pequenos teatros que abrigam grupos e estudantes há anos na cidade. O Teatro Oficina do Perdiz funciona agora no subsolo, enquanto o aparato mecânico fica no andar térreo. A pequena sala conta com palco de madeira, arquibancada, cadeiras e já tem recebido grupos para ensaios e oficinas teatrais.

Uma destas oficinas recebe a participação de Júlia Perdiz, filha de José e Herdeira do espaço. Depois de conviver anos com os trabalhos artísticos do pai e a rotina teatral da oficina, a jovem decidiu se dedicar também à produção e aos bastidores do palco. “Eu quero mesmo é trabalhar na parte de trás do palco, com as outras funções que compõem o espetáculo. Mas decidi me aventurar na oficina e experimentar como é ser atriz”, conta a menina. Enquanto isso, José Perdiz tenta dar continuidade às reformas do novo espaço para deixar tudo pronto e marcar a data da inauguração oficial. As instalações ainda estavam inacabadas quando as apresentações do espetáculo Fahrenheit, de Luciana Martuchelli, tomou conta do local. “Ainda faltam alguns ajustes mas o teatro já pode ser utilizado e continuamos a ser muito solicitados pelos grupos da cidade, já que a maioria dos teatros brasilienses, mesmo que pequenos, têm aluguéis muito caros”, afirma Perdiz.

Perdiz

Tendo entrado no teatro em razão das circunstâncias, quando um enteado pediu que o espaço fosse emprestado para ensaios de seu grupo, José Perdiz não largou mais o ofício, ainda que com dificuldades. “É muito difícil viver só com o teatro aqui na cidade, a gente encontra muitos obstáculos mas é importante persistir e quando vejo o público todo assistindo as peças e gostando, vale o esforço. No Perdiz já teve teatro, dança, exposição, mímica. Muita gente acha que é loucura esse trabalho todo, mas não é, faço com amor”, afirma. O novo teatro tem espaço para 80 pessoas e, com ele, José pretende retomar o fôlego de sua fase mais movimentada, na década de 1990, quando a Oficina do Perdiz chegou a receber 7,5 mil pessoas no espaço de um ano.

A família Perdiz se mudou para o novo espaço em 2015 e pretende persistir com os ensaios, oficinas, montagens e apresentações teatrais. O teatro do antigo endereço, que funcionou por 38 anos, ficava na 708/709 norte e em seus últimos anos apresentava problemas estruturais e com o Ministério Público. A história do teatro que funciona com a verba que vem da oficina, no mesmo espaço, foi parar nas telonas pelas mãos de Marcelo Díaz. O registro, chamado Oficina Perdiz, ganhou o Troféu Candango de Melhor Curta 35mm do DF no 39º Festival de Brasília e o Festival Internacional de Curtas de São Paulo (2007). A ideia agora é utilizar a nova sede para contar e criar novas histórias e voltar a receber o movimento típico dos espaços culturais, com produção de figurinos, ensaios e circulação de artistas.

Histórico

Em 1975, o mecânico cede o espaço para ensaios do grupo de teatro de seu enteado, aluno de teatro da Faculdade Dulcina de Moraes (FADM). A partir de então, recebe diversos artistas locais que a usam para ensaios. Em 1989, a oficina é transformada em espaço cultural quando o diretor de teatro Mangueira Diniz (1954-2009) resolve utilizá-la para a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett (1906-1989). Para a montagem, Perdiz constrói uma estrutura cênica improvisada, com arquibancadas e camarins. Durante o dia, a oficina funciona normalmente e, à noite, o local recebe apresentações de peças de teatro e shows de música. Em 1991, Mangueira Diniz encena o espetáculo Bella Ciau, de Luís Alberto Abreu, adaptação dele e de Francisco Rocha. O espetáculo ficou em cartaz por um ano e revelou artistas da cidade.

Entre 1991 e 1992, o teatro chega a atrair um público de mais de 7,5 mil pagantes. Em 2002, o Teatro Oficina do Perdiz é ameaçado de fechar por ser construído em um espaço ilegal. Em 2006, o Teatro do Concreto entra em temporada com espetáculo O Diário do Maldito como um ato de resistência ao fechamento do teatro. No mesmo ano, o cineasta Marcelo Díaz produz o curta-metragem Oficina Perdiz.


http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/08/02/interna_diversao_arte,542652/teatro-oficina-do-perdiz-permanece-como-ponto-de-resistencia.shtml