ceceuUma vez eu estava num sarau no Sebinho quando um conhecido me cutucou espantado, apontando Noélia Ribeiro: “É ela mesmo?”. Fã do Legião, ele não acreditava que estava quase que cara a cara com a musa de Travessia do Eixão, música do lendário Liga Tripa, mas que na verdade ganhou o cenário nacional quando, anos depois, foi gravada na voz de Renato Russo. E assim como a música ganhou o país, Noélia Ribeiro revelou-se muito mais que musa.

É autora de uma poesia deliciosa de ler, que transborda lirismo e – tantas vezes – humor espontâneo, que pega o leitor sem aviso, e ele fica perguntando o que deve fazer primeiro: rir ou se emocionar. A seguir, alguma perguntas para Noélia Ribeiro.

Quando e como foi que você identificou que a poesia era sua forma de se expressar?

Quando eu era criança, costumava fazer quadrinhas com o nome das pessoas. Minha mãe, sempre muito observadora, comprou um caderno especial, com capa dura e friso dourado, para minhas composições. Assim comecei a escrever poemas e canções. Escrevi duas canções (letra e música) aos nove anos.

Você tem um olhar muito atento para o quotidiano, para o dia a dia. O que te inspira?

Você já disse tudo. Minha inspiração vem do meu quotidiano, que acaba se espelhando no quotidiano dos outros, com as perdas e os ganhos emocionais que a vida nos oferece. Falo, com um olhar muito feminino, de paixão, desejo, solidão, amor, indignação, dor, prazer. O que me move poeticamente é o assombro de estar viva.  

A tua poesia é irreverente, lírica, apaixonada, bem humorada. Mesmo quando é crítica, identificamos o bom humor, uma certa picardia. Você é assim, como sua poesia?

Meus irmãos e eu herdamos de minha mãe o humor refinado, a capacidade de rir da própria desgraça e das mazelas dos outros. Via de regra, o texto, o filme, a cena do quotidiano que me fazem rir não fazem rir a maioria das pessoas. Há um elemento tragicômico em muitos dos meus poemas.

Atarantada, Escalafobética… que caminhos você percorre até chegar ao título de seus livros? Como você chega até eles?

  Eu cheguei ao Atarantada por acaso. O nome do livro seria outro, mas, ao conversar com uma amiga, ela sugeriu que eu colocasse o nome de um de meus poemas como título do livro. Nessa procura, encontrei o poema Atarantada. A escolha não poderia ter sido mais feliz, porque “atarantada” é uma palavra formada somente pela letra “a”, ou seja, aboslutamente feminina. A partir daí, decidi manter essa ideia de usar adjetivos pouco comuns nos próximos dois livros. O Escalafobética nasceu quando, assistindo a uma peça, ouvi o personagem proferir a palavra “escalafobética”. Dessa vez, o poema Escalafobética foi escrito após a definição do título, ao contrário do Atarantada. O próximo livro da trilogia ainda não tem nome definido, mas tenho várias sugestões anotadas. Só vou revelar uma semana antes do lançamento para manter o mistério.

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Existe uma literatura feminina?

Não gosto desse termo. É claro que o olhar feminino sobre determinado tema tende a ser diferente do olhar masculino, mas isso não é suficiente para se dividr a literatura em duas categorias. Eu, particularmente, não faço essa distinção. Eu gosto de livros que me traduzam, não importa de quem sejam.

Você foi namorada do Nicolas Behr. A poesia dele influenciou a sua?

Quando namoramos, éramos muito jovens. Enquanto ele vendia seus livrinhos nos bares e teatros, eu estava nas aulas do curso de Letras da UnB estudando Cruz e Sousa, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo e tantos outros, o que, de certa forma, impedia que eu percebesse a importância da poesia do Niki. Muitos anos depois, quando decidi lançar o Atarantada, reformulei vários poemas antigos para colocar no livro. Naquele momento, dei-me conta da influência de sua linguagem poética em meu trabalho.

 Quais as melhores e mais fortes lembranças que você guarda daqueles tempos de travessia do eixão?

Poderia escrever um livro só das lembranças boas que tenho daquele tempo. Morávamos em uma cidade tão jovem quanto nós, uma cidade sem passado. O futuro daquela cidade dependia também de nós, principalmente no aspecto cultural. Mesmo com a censura, conseguíamos nos expressar e movimentar Brasília. A imprensa local divulgava nossos eventos, e o público estava a fim de nos ouvir. Nessa época, fiz poucas apresentações, porque eu era tímida. Uma delas foi no Concerto do Lago Norte, quando recitei (de costas) um poema que fiz para o Renato (Russo). Ele estava presente e achou joia.

Vicente Sá diz que, antigamente, para você declamar um poema, era preciso quase te arrastar para o palco. Agora, segundo ele, se quisermos saber a agenda de saraus de Brasília é só abrir tua página no FB. Como é declamar para você? Como foi essa descoberta?

Depois que me casei, fiquei recolhida muitos anos, lambendo as crias, porém, algum tempo antes de lançar o Atarantada, eu resolvi procurar meus amigos e voltar a frequentar os eventos da cidade. Vicente Sá e Menezes & Morais eram os que mais insistiam em que eu recitasse meus poemas. Era algo dificílimo, porque a voz saía tremida e eu tinha medo de não agradar. Depois do lançamento do Atarantada, tudo mudou. O livro teve enorme aceitação. Por isso, comecei a perder o medo de mostrar meus poemas e fui, aos poucos, criando uma maneira própria de recitar. Hoje recebo muitos convites para participar de saraus em todo o Distrito Federal. Recentemente, comecei a recitar meus poemas no Rio de Janeiro. Fui com a cara e a coragem e acabei fazendo grandes amigos. Periodicamente, viajo para lá.

noelia_ribeiro33A poesia tem se popularizado mais?

Poesia não é algo fácil. Ainda temos que buscar mais espaço, mas estamos caminhando para isso. Sempre que posso sugiro que se coloque poesia nos eventos. Brasília tem muitos poetas e gente que aprecia nossos poemas.

Se você não fosse Noélia Ribeiro, que poeta você gostaria de ser?

Admiro Cecília Meireles, Alice Ruiz, Florbela Espanca, Wislawa Szymborska, Emily Dickinson, Adélia Prado, entre outras, mas não gostaria de ser nenhuma delas. Gosto de ser quem sou.

 


 BIOGRAFIA

Pernambucana e residente em Brasília há maos de 30 anos, Noélia Ribeiro lançou Expectativa, em 1982; Atarantada, em 2009, e Escalafobética, em 2015. Formada em Letras pela UnB, a poeta tem poemas publicados em coletâneas, jornais e revistas brasileiras. É musa da canção “Travessia do Eixão” composta por Nonato Veras (música) e Nicolas Behr (poema), gravada pelos grupos Liga Tripa e Legião Urbana. No Facebook, tem uma página com seus poemas chamada Atarantada.