alexandre-marinoJá aconteceu com você de comprar ou ganhar um livro de poesia e não dar muita atenção na hora? Encosta ele no canto da estante sem ler, ou tendo lido apenas um poema ou outro, sem muita atenção. Aí, anos depois, como se acordasse de um longo sono pesado, você pega ele ao acaso, e quando se dá conta está devorando suas páginas e em poucas horas já leu tudinho, de cabo a rabo? Pois é, isso aconteceu comigo com o livro Arqueolhar, do poeta mineiro Alexandre Marino. Foram 11 anos para descobrir de verdade um belíssimo livro de poesias, um dos melhores que li na vida, arrisco mesmo a dizer. Conheça agora um pouco mais de Alexandre Marino e também do Arqueolhar nessa entrevista que fizemos com ele. Ah, e se você tiver em mãos um livro do autor, não perca o tempo que eu perdi.


Seus livros, como Arqueolhar e Exília, por exemplo, demonstram unidade nos temas, na forma de abordá-los, nas sensações que esses temas te transmitem. As sensações que você transmite ao leitor são muito lineares, e não deixam de ser maravilhosas por isso. Como você encontra essa unidade? Essa espécie de fio condutor atravessando o livro, o que não é muito fácil num livro de poesia, não é verdade?

Nesses dois livros, publicados em 2005 e 2013, respectivamente, creio ter alcançado uma certa maturidade na minha busca por uma linguagem poética. Escrevo poemas desde a infância, e aos poucos compreendi que a poesia é uma evolução da linguagem, por permitir várias camadas de leitura e de sensações. As imagens e as metáforas oferecem ao leitor possibilidades de interpretação que podem ser diferentes daquela do próprio autor ou de outros leitores, e diferentes a cada leitura… Isso me encanta, e me estimula a me aprofundar na busca de uma linguagem poética enriquecedora. Talvez essa unidade que você identifica nesses livros revele que estou no caminho certo. Mas além disso considero o fato de que tanto Arqueolhar como Exília nasceram de projetos prévios, de uma ideia original, a partir da qual reuni alguns poemas já escritos para criar os demais. Ao contrário do que se pode pensar, o projeto se torna muito inspirador, porque você foca naquela ideia central e os poemas vão surgindo espontaneamente.

Eu noto um certo misticismo em seus poemas. Estou errado?

Creio que minha poesia busca uma transcendência que eu nem sei exatamente o que é. Eu fui criado numa família religiosa, mas me desvencilhei dos clichês religiosos. Acho que ficou um certo misticismo enraizado, porque reflito muito sobre mim, sobre a natureza, as criaturas, a vida, enfim, e estou longe de compreender tudo isso. Acredito que o ser humano, especialmente nos grandes centros urbanos, se desconectou totalmente da natureza e é necessário fazer um retorno, voltar a compreender os ciclos, a água, a chuva, as estações, os animais, o cosmo. Isso está presente na minha poesia e creio que é uma forma de transcendência. Dizem que a literatura quer responder sempre às mesmas clássicas perguntas – quem somos, de onde viemos, para onde vamos… – mas eu não quero responder nada, até porque nunca teremos essas respostas. O que me interessa é perguntar. Acho que a linguagem poética pode ir muito além dos trocadilhos, dos jogos de palavras, das descrições de momentos, e caminhar em direção a essa transcendência, ou quem sabe uma imanência… O que não significa sair da realidade, até porque a poesia está calcada na realidade, é aí que surgem as grandes questões.

literatura

Reparo também que há muitos elementos em sua poesia que parecem ter marcado sua infância, sua adolescência. Seu trabalho tem um encanto de fotografia amarelada pelo tempo. Que força eles têm nos seus poemas?

A memória é elemento muito importante na minha literatura. O que marcou minha infância e minha adolescência me marcou para sempre, e creio que é assim com a maioria das pessoas. Quando fiz o livro Arqueolhar, que é uma arqueologia da minha infância, porém sem pretensões nostálgicas, eu trabalhei muito com a memória e comecei a perceber que era capaz de me lembrar de coisas escondidas lá no fundo do baú, de detalhes mínimos, lembranças que puxavam outras, e desde então esse baú, todo remexido, ficou destrancado, com seu interior mais exposto. Creio que o amadurecimento me leva a interpretar meu presente a partir das minhas vivências, e isso torna a memória muito presente. Eu não tenho intenção alguma de fazer saudosismo em meu trabalho, acho que o tempo presente, de tão sufocante, exige a expressão poética. Mas a memória é uma ferramenta muito interessante.

E o regionalismo? Há também aquela doçura interiorana em seus poemas. O que é Minas na tua poesia? E o engraçado é que Minas aparece, mas de uma forma que também pode ser Goiás, pode ser a Bahia, dependendo da imaginação do leitor. Como é isso?

Não considero minha poesia regionalista, mas pode haver um ou outro sinal de minhas origens. Nasci em Passos, cidade do interior de Minas, que depois cresceu muito e hoje é um centro urbano com problemas de cidade grande. Lá vivi até os 17 anos. Mas naquela época era uma cidade pequena, ficava a meio caminho entre Belo Horizonte e São Paulo mas as estradas nem eram asfaltadas. A tecnologia de telefone, rádio e televisão era muito precária – nem preciso dizer que a internet não existia nem como ficção científica. Na adolescência, quando eu e um grupo de amigos com pretensões literárias começamos a perceber que a literatura era coisa a ser levada a sério, a ditadura militar estava em seu período mais violento, com censura e clima de repressão. Havia uma necessidade interior de expressão, e as pessoas eram em geral muito receptivas a jovens que buscavam se expressar. Ao mesmo tempo, eu vivia em meio familiar tipicamente mineiro, família grande, gente que gostava de prosa; meu pai e meu avô eram bons contadores de histórias, havia uma vida rural muito presente… Uma de minhas tias, solteira, professora primária, lia histórias para mim na infância e me ensinou a ler e escrever. Minha mãe era professora de desenho do ensino médio e me apresentou alguns poetas importantes, inclusive Drummond. Foi nesse contexto que dei meus primeiros passos na escrita. Meu interesse pela literatura nasceu dentro de minha casa, e se desenvolveu em ambiente social muito propício. Criamos uma revista, Protótipo, que recebeu enorme apoio da população da cidade e depois teve repercussão nacional. E assim nos tornamos escritores. Dessa turma, continuamos eu, Antonio Barreto, Marco Túlio Costa e Marise Pacheco.

Qual o impacto que Brasília teve e tem na sua poesia?

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Eu vivi em três cidades com características distintas. Primeiro, Passos, uma cidade do interior; depois, Belo Horizonte, capital e metrópole; por fim, Brasília, cidade planejada, um projeto urbanístico peculiar, que tinha menos de 30 anos quando vim para cá. Ao chegar, eu queria escrever sobre Brasília, mas não conseguia. Era um mistério. Todo mundo que morava aqui escrevia sobre Brasília. Depois comecei a perceber que Brasília era uma armadilha para os escritores. Era uma fonte de clichês. Monumentos, eixos, Esplanada, o poder, a solidão, os gramados, o trânsito, a sopa de letrinhas das quadras… As pessoas se repetiam muito, e ainda se repetem. Tentando fugir disso, comecei a tentar ver Brasília com um outro olhar. Conheci muitos poetas aqui, gente que estava tentando criar uma literatura de Brasília. Mas eu não acreditava numa literatura brasiliense, porque Brasília ainda não tinha um contexto cultural que permitisse seu surgimento. A literatura daqui é aquilo que a cidade é, uma mistura de culturas, e hoje os movimentos cresceram, surgiram novos grupos, muita gente já é enraizada aqui, e quem tem olhos para ver sabe que a literatura de Brasília continua sendo isso. Mas o fato de ser centro do poder nacional influencia, para o bem e para o mal, a nossa cultura e as nossas artes. Inclusive pela desunião.

Você parece ser uma pessoa muito ligada à música. De que forma compositores como Leonardo Cohen, por exemplo, te inspiram?

Embora eu não seja músico, sou de fato muito ligado à música, desde a infância, acho a forma de expressão mais perfeita que existe, pois é capaz de estabelecer um diálogo entre pessoas que não falam a mesma língua. No início dos anos 70, quando começava a levar a literatura a sério, eu me encantava com a música brasileira, que era uma ferramenta de resistência à ditadura militar, com Chico Buarque, Caetano, Gil, Raul Seixas, os óbvios, e um grande número de artistas que fizeram coisas belíssimas. As letras das músicas desses artistas eram poemas de primeira qualidade. Além da MPB, havia o rock, que também era linguagem de resistência, de mudanças, como os Rolling Stones ou Bob Dylan… Parecia que as artes ligadas à palavra – a música, a poesia – estavam prestes a mudar o mundo. Assim, a música que eu ouvia era uma importante influência, assim como a poesia que eu lia. Leonard Cohen só vim a conhecer bem depois, na década de 80, mas representou para mim o mesmo que esses artistas. Música e poesia emocionantes e inspiradoras.

Em que momento o Alexandre Marino poeta e o Alexandre Marino jipeiro se encontram? De que forma um colabora com o outro?

Nós nos encontramos em quebradas onde o mundo urbano não consegue chegar… (risos). Na verdade eu uso o jipinho para fugir do caos urbano. Gosto de percorrer estradas de terra, que são caminhos criados pela necessidade de deslocamento, ao contrário das grandes rodovias, que são complexas obras de engenharia criadas para as máquinas. Eu sei que esses caminhos também significam uma interferência na natureza bruta, mas nossa presença será sempre uma interferência, não há como negar. Eu também gosto muito de fotografar – paisagens, árvores, pássaros – e creio que assim complemento o meu olhar de poeta, é uma troca de olhares. O poeta, o jipeiro e o fotógrafo se entendem e se dão muito bem.

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Conte daqueles tempos de agitação cultural em Belo Horizonte, as publicações alternativas. O que restou de tudo aquilo no poeta que você é hoje?

Os oito anos que vivi em Belo Horizonte, nos anos 70/80, foram fundamentais na minha formação como poeta. Eu lá cheguei em 1974, levando a experiência da publicação de uma revista literária mimeografada, ainda em Passos, que chamou muita atenção para nosso grupo. Nessa época existiam muitos concursos literários e eu já havia ganhado alguns prêmios. Me enturmei com outros escritores jovens carregando essas experiências. Participei de outras revistas editadas lá, e de eventos que a galera da literatura jovem promovia. A agitação cultural, e especialmente literária, era muito intensa na cidade. Todos os domingos havia feira de artesanato na Praça da Liberdade, com espaço cativo para a poesia, onde o grupo Poesia Livre, de Ouro Preto, organizava vendas de livros e revistas, declamações, agitações diversas. Quando eu estava terminando a graduação em Comunicação/Jornalismo, um ex-colega da universidade me propôs preparar um livro de poemas para publicar.

Assim nasceu meu primeiro livro, Os Operários da Palavra. Mas a editora dele não durou muito tempo e foi-se o sonho de uma boa distribuição. Peguei os 2 mil exemplares impressos e fui para a rua. Vendi tudo em bares, filas de teatro, eventos culturais. Depois publiquei outro livro – Todas as Tempestades – e participei de um grupo de declamação de rua. Ensaiávamos aos domingos e sempre que possível nos apresentávamos, na rua, nas praças, em eventos… Fizemos a guerrilha poética, algo que seria maluquice hoje, porque entrávamos mascarados em bares lotados para fazer um happening meio anárquico. Isso me ensinou muito sobre ritmo, sobre a busca da palavra certa, e sobre falar poesia. Nesses anos aprendi que a poesia merece uma embalagem bonita, seja impressa, seja falada. Um livro bonito é um bom veículo para a poesia. E não gosto de ver alguém subir num palco e dizer: “Olha, eu não sei declamar não, mas vou dizer um poema pra vocês.” Ora, se não sabe, não fale!

Você publica pouco nas redes sociais. Por quê? Elas não são uma forma de levar a poesia ao grande público?

De fato, eu poderia publicar mais. Concordo que as redes sociais são uma forma de levar a poesia a um público maior. Mas há algumas questões. Primeiro, meu processo de criação, que começa com uma primeira versão escrita a mão, e depois um período de lapidação, no computador, que eventualmente pode se prolongar. Eu demoro um pouco para considerar um poema concluído. Não me agrada a ideia de publicar um poema na rede e depois achar que ele precisa de alterações. Segundo, às vezes acho que o ritmo de leitura de uma rede social é muito rápido e não combina com poesia, o que me leva a crer que o poema nem sempre é bem lido. A poesia exige uma concentração e uma entrega que as redes sociais não favorecem. É claro que não deixo de publicar por causa disso. Mas o meu veículo ideal é o livro, porque o livro é um fechamento, uma conclusão, uma obra pronta, o início de uma nova fase, do poema e do poeta. A maioria dos poemas que divulgo nas redes é de poemas já publicados em livro. Estes estão consolidados.

Se você não fosse Alexandre Marino, que poeta você gostaria de ser?

Eu gostaria de ter sido Castro Alves, um fenômeno da poesia brasileira. Embora tenha vivido apenas 24 anos, deixou uma obra de peso, fortíssima, atual até hoje. Ainda tão menino, era capaz de fazer parar uma cidade inteira para vê-lo declamar seus poemas. Uma companhia de teatro portuguesa de nome mundial, em cartaz em São Paulo, cancelou seu espetáculo porque os atores queriam ir vê-lo em outro local. Teve uma vida intensa, totalmente ligada à poesia. Num país que até hoje demonstra tanto desprezo pelo idioma, pela literatura, pela palavra, ele foi um herói.


Perfil biográfico ­– Alexandre Marino publicou seis livros de poesia e prepara mais um, que pretende lançar no primeiro semestre do ano que vem. Seu livro mais recente, “Exília”, publicado pela Dobra Editorial (SP) em 2013, foi resultado do projeto contemplado em 2008 pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) no Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Literária. Mineiro de Passos (1956), é jornalista e publicitário. Em Brasília, foi repórter do Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Desde 2006 é servidor concursado do Ministério da Educação.