Um papo bom sobre o tempo de agora e foi me despertando assim essa vontade de aprender viver em outros tempos verbais. Um impulso vital de quando a gente ri e se encontra e compartilha com quem tem sede de vida. Algo de domingo quando joga os pés para cima e se perde algumas horas no sofá e a força dos olhos de quem diz com firmeza e boa vontade que saiu ali do chão de terra batido pra voar mundo afora.

Olhei com calma, uma voz forte, uma quase raiva no encontro com algum instante paralisado. Gente assim desperta vontades de caminhar mais longe quando eu for lá fora. Apagar os rabiscos um tanto amedrontados de antes e carimbar a folha com a certeza que nos desperta no tempo de então. Quis escrever com tinta preta, caneta permanente, vontade de abrir ainda mais olhos.

Colocar o pé no palco, sujar alguns cadernos, bater perna por aí, colher palavras enquanto me encontro com o mundo. É que o experimento do gosto de novidade na língua cria substantivos e verbos mais abusados que o sonho perdido entre os próprios receios. Perdi o medo do caminho, eu juro. Mania de jurar, vai ver inventei uma espécie de mentira permanente para enxergar nas páginas e precisei prometer minha própria existência em outras caminhadas. Mas agora perco, encontro, desdobro.

Faço calos de tanto movimentar os pés. Gosto desses tempos verbais mais cheios de si. Perder-se entre a língua enquanto me comovo pelo ímpeto que te move em aprender outras linguagens. Quero que a janela seja apenas uma recordação e o mundo me encha os olhos e a garganta enquanto me atravesso por ela. Há um tanto de instante solto por aí para colher palavras.

Sair da ilha, abrir o peito, entregar-se outra vez – e sempre – à possibilidade de navegar. Era só mais um tantinho de nada, pensativo e perdido em um instante qualquer. É isso o pensamento sem crença, sem sonho, um tantinho de nada trajando uma alma bem vestida e agasalhada. Era o fim do início de todas as possibilidades, sem a vantagem de olhar em frente e encher o peito munido de todo o tempo e todos os caminhos e todas as tentativas e todos as portas escancaradas do mundo. E ali no instantinho de nada, a possibilidade de rasgar todos os papéis. A despedida dos desencantos e a tentativa de manter viva a crença nos antigos sonhos.

E qual seria a outra possibilidade? Eu nunca gostei de lugares rasos. Com a cabeça mergulhada na espuma de persistência que se tornava um pouco mais rala a cada ano. Não, não queria sair do mergulho profundo e ainda menos juntar-me aos olhos que se recusam a viver submersos em si. Bati a porta, e outra e mais outra. Sorrindo, aprendi a sorrir. Silenciando, aprendi a silenciar.

O tempo escorria pelos dedos sem a menor possibilidade de deixar-se segurar. Lembrava Quintana, tão bom morrer de amor e continuar vivendo. Às vezes o tempo parece querer engolir a gente e espremer as entranhas e esquentar os rostos e fazer esquecer todos os mais bonitos quereres. E me permitia escorrer pelos olhos e perder uns bons bocados de horas. E respirava fundo outra vez, enquanto distraía os olhos naquele céu maior do mundo e nas cores que dançavam pela frente.

Olhava ao redor em busca de outras gentes, outros risos, outros pedaços bonitos de céu. E rabiscava um verso besta no papel, antes que a vida se tornasse exageradamente real. Fugir do tempo é a fantasia mais doce que já provei. E ainda assim, não tornaria possível desacreditar. Olhava ali na frente as mãozinhas dadas, as toalhas estendidas no chão, os doces espalhados entre os quadradinhos que se misturavam em cor. Não tornaria possível desacreditar.

Cansei de deixar aquela porta breve e antiga trancada, abri, respirei fundo e liguei de novo a luz daquela tela. O dia todo? Mas os olhos da gente foram feitos para dançar no sol. Respirava. Não deixe de criar, não deixe de criar. Sim, ainda era possível a criação. Revirei na cama a noite toda tentando entender quem era aquela gente. É possível sorrir também e silenciar. Um susto de encontro aos olhos, pois ainda assim, não teria deixado sumir a possibilidade de iniciar. Permiti.