Criar o hábito e a conexão prazerosa com a literatura desde a infância é o mais amplo caminho para criar possibilidades de vermos cada vez mais adultos leitores e conscientes de suas próprias leituras. O universo criado pela relação com os livros é enorme, passando pelo encantamento, pela descoberta de novas ideias e histórias e pela formação de novas reflexões e questionamentos. Se uma criança, desde sua mais tenra idade, entende que folhear as páginas de um bom livro é um momento divertido e desconexo de obrigações, o contato com uma literatura cada vez mais diversa será ampliado durante a adolescência até a fase adulta.As crianças não nascem com seus interesses prontos, essa construção do interesse depende muito da colaboração dos adultos durante a primeira e segunda infância.

Entre diferentes estudiosos e profissionais da área surgem algumas ideias em comum, entre elas, o fato de que o livro deve ser para a criança como um brinquedo, acessível ao toque, ao alcance das mãos e passível de todo tipo de descoberta sensorial. A literatura infantil possibilita que o ser crie uma relação de prazer com esses livros sem que seja uma relação de apenas obrigação que se desenvolve na fase adulta.

oCiclorama conta com uma coluna quinzenal escrita por duas apaixonadas leitoras e educadoras, que pesquisam e debatem por aqui um pouco mais deste rico universo entre páginas e crianças. Hoje trouxe duas entrevistas de nossas colaboradoras Adriana Bertolucci e Dayla Duarte, que contam um pouco mais desse interesse literário que tanto nos transforma.

Confira aqui o bate-papo.

Qual a importância da literatura na infância para a formação de leitores? Essa formação inicial tem influência na fase adulta?

Dayla:

O livro é um instrumento de cultura que interfere muito na maneira com que a gente vivencia nosso cotidiano, ele demanda atenção, silêncio. Outro aspecto é que desde a infância você pode considerar um livro um objeto de brinquedo, o brincar, não torna aquele objeto sofrível. Ele permite um grande desenvolvimento linguístico, facilita esse desenvolvimento de conhecer os idiomas, outras realidades, propostas de toque, novas texturas, projetos gráficos diferentes. Tudo isso amplia para uma alfabetização visual e valores humanos melhores. Lidar com a diversidade, ser mais flexível, sentir-se organizado, saber quando é preciso silêncio ou dar mais atenção a um detalhe. Esse contato inicial tem completa influência na fase adulta e um adulto que não lê ele não consegue conviver por completo nessa atual sociedade, principalmente em grandes centros. A leitura é uma habilidade importante para diversos aspectos sociais, amplia o leque de possibilidades na sociedade.

Adriana:

A importância da literatura na infância é principalmente nos primeiros meses de vida, até os dois anos você está formando o gosto da pessoa. Então se você tem o costume e a prática de comer frutas, brincar com bola, ler livros, vai se tornar comum na prática da criança. É uma questão de rotina e cultura, a cultura a essa prática da leitura. Eu tenho uma filha de 1 ano e três meses, eu leio diariamente para ela. Ela se diverte tanto brincando de jogo, quanto brincando de bola e brincando de livro. Ela se diverte, me pede para ler e pretendo continuar com essa prática, visando formar uma adulta leitora.

Que tipo de trabalhos são feitos para incentivar a leitura durante a infância e como despertar o prazer pelos livros?

Dayla:

Para todas as fases da infância vale experimentar diversas possibilidades: contação de histórias, leitura em conjunto, leitura entre pais e filhos, mediação de livros, deixar o livro sempre disponível. A passagem de páginas de um livro no tablete não tem a mesma função da leitura do objeto livro, ele ainda é importante, cada página é diferente, tem uma textura. Nem uma delas é melhor ou pior, elas são diferentes e trabalham aspectos diferentes, todas são importantes, podemos trabalhar com todos os suportes para leituras, usufruir de todos sem ter que destruir as tecnologias anteriores.

Uma das ações para incentivar esse contato na infância é disponibilizar o livro para que a criança possa interagir da maneira que ela quer, sem criar proibições, que é como ela lida com os brinquedos, com essas descobertas. Outro tipo de trabalho para incentivar a leitura é a leitura em conjunto, entre pais, mães, crianças já mais velhas que podem partilhar essa leitura. Esse trabalho simples de estar junto da criança incentiva muito a leitura e a associação do prazer com os livros. Toda criança tem necessidade do afeto para o bom desenvolvimento.

Qual seria a melhor maneira de trabalhar a literatura em cada fase?

Dayla: Existem algumas coisas diferentes para cada fase. Uma mediação de livro é diferente para um bebê e para uma criança de 8 anos, já vamos realizar outras ações, de acordo com as possibilidades da criança. Cada fase podemos explorar coisas específicas mas não tem uma receita de bolo. Acho que a tecnologia não afasta as crianças do livro, o que afasta é a nossa ausência em deixar que ela se aproxime dos livros. É possível equilibrar sim as coisas, temos outra infância agora, com outros recursos e possibilidades, isso só amplia as possibilidades de vivência, os pais precisam fazer um esforço de proporcionar o livro impresso como uma forma de direção tanto quanto os videogames, tablets. O livro também é uma tecnologia, que não demanda energia, inspira e convida para outros tipos de prazeres, diversão e ludicidade.

Adriana: O melhor trabalho que eu acho para incentivar essa leitura e despertar o prazer é a mediação da leitura, quando você lê com alguém o livro, você consegue compartilhar suas sensações e abrir diálogos possíveis através da quele livro. Essa troca de experiências torna a fruição cada vez mais rica. Eu comecei a dar aula em uma escola e passei a ler com as crianças, depois disso eles começaram a buscar os livros, frequentar a biblioteca. A literatura infantil é muito divertida, quando o mediador faz a mediação desse objeto livro, o interesse das crianças é despertado. Outra coisa que incentiva é a rotina, eu leio todos os dias com a Amora (minha filha) e hoje em dia ela mesma já pega um livro da nossa pequena biblioteca e me traz para ler. Eu sempre leio na frente dela também, então ela vê que eu também tenho esse interesse.

As crianças ainda se interessam pelos livros de papel ou o online seria o melhor formato? Na sua experiência, como tem sido essa relação?

As crianças não nascem com seus interesses prontos, essa construção do interesse depende muito da colaboração dos adultos durante essa primeira e segunda infância. Quando os livros são apresentados, as crianças despertam sim esse interesse. O impresso e o online são importantes, um não exclui o outro. O livro foi feito para tocar, para que a gente use todos os nossos sentidos.