Há uma janela ao fundo e um ponto de escape ao centro. Um vento fraco que faz barulho logo atrás e faz voar os últimos fios de cabelos soltos. Há uma incerteza no tempo e um instante que se faz lembrar sempre, tornando intactos os antigos sonhos, quase esquecidos, guardados na última gaveta, da última porta, do último quarto. A maçaneta está quebrada, é preciso puxar com certa força, tirar a cobertura, limpar a poeira, olhar outra vez os mesmos papéis.

Há uma lista de passos, um par de pés que se perdem no caminho, uma calçada com curvas sinuosas e um tanto de canto quebrado. Há uma espécie de nuvem que esconde a surpresa do dia, ao mesmo passo em que o céu teima em se mostrar sem estardalhaço. Há uma saudade distante, uma certeza estremecida e uma lembrança reconfortante. Há alguma Maria, dispersa, inerte, quase nada estonteante. Há ainda a mesma gaveta e um punhado de sonhos que se atiram a um ponto, talvez, quem sabe, um dia, revigorantes.

Tinha uma estrada assim, comprida como ela só, quase nunca eu via gente passar por lá. Corria lá perto um lago e dentro tinha até sapo, lá de cima voava passarinho de uma porção de cor. Eu caminhava devagarzinho, doida de vontade da estrada não terminar. Os pés passavam por um caminho de paralelepípedos lisinhos ou pela grama verde, macia e um pouco úmida. Ao final da estrada era preciso calçar os sapatos, vestir as roupas, desembaraçar os cabelos que, pelo vento fresco de então, se emaranhavam cheios de nós. Eu deitava na grama no meio da estrada, corpo desnudo por dentro, pele desnuda por fora. Sentia o sol quente e tremendamente alaranjado me arrancar umas boas gotas de suor.

Tinha árvore torta da casca grossa, feito as terra em que eu morava a vida toda, procurando sombra para se refrescar. Perto da margem o lago fazia aquele barulho bom de água e minha boca começava a salivar. Eu lá era dona do mundo, do poço profundo, da folha seca que amassava nos pés, do tempo, da cor nova que aparecia, da água entre os dedos e do riso solto, mas nunca em vão. Queria eu que a estrada fosse infinita. Mas ela logo terminava e, silenciosa, eu limpava a terra dos calcanhares e soltava o passarinho que guardava entre as mãos.

Ver a cidade, andar o mundo a peito aberto e pés descalços. Fechar os olhos e respirar a própria insanidade que pulsa dentro de um corpo quase são. Ver o céu a todo tempo e esparramar sonhos, faltas, dúvidas e desejos pelo concreto. Acostumar-se ao sal da lágrima, esbaldar-se ao mel do riso e manter intacta a sutileza dos primeiros sonhos, sem deixar de deliciar-se com a aspereza que se forma em certos cantos da pele. Derrubar as próprias incertezas e certificar-se de que estar plenamente convicto não é uma possibilidade palpável. Permitir o caminho da impermanência, sem deixar de reconhecer e tomar para si alguns pedaços recolhidos da calçada. Ver a cidade… e constatar a existência de um sem fim de amores, falhas, caminhos, permanências e sensações. Afinal, sentimos. Perceber, por fim, a beleza inexplicável da imperfeita verdade que nos transborda. Ainda que com os pés a caminhar por entre duros barros, seremos um sopro.