Já é certo que a poesia me encanta e me acompanha diariamente por entre a poética do cotidiano e o delírio dos versos. Seja para expressão própria, conforto ou vontade de expandir o diálogo entre poemas, a poesia faz parte dos meus dias desde até onde me recordo de minha própria memória. Tive a sorte de entrevistar alguns poetas da cidade para entender um pouco mais a sua produção criativa, características autorais e entendimento poético. Hoje compartilho com vocês o papo com Noélia Ribeiro, um dos nomes mais conhecidos entre as palavras versificadas de Brasília.

Boa leitura!


Noélia Ribeiro, 54 anos, poeta brasiliense

Quando e por que motivo você começou a escrever?

Quando eu tinha 9 anos, eu compus duas canções e registrei as letras em um caderno que ganhei de minha mãe. A partir daí comecei a escrever o que me vinha à cabeça. Naquela época, acho que precisava escrever porque me sentia só. Minha mãe trabalhava o dia todo e eu ficava muito tempo com a empregada.

Como a poesia existe no seu dia a dia e de que maneira você se expressa através dela?

A poesia é minha companheira. As ideias aparecem a qualquer hora e acaba que me atrapalho no meu dia a dia, porque quero registrar de qualquer jeito, nem que seja em guardanapos, notas fiscais, mandando recado pra mim mesma etc. Eu me expresso compondo esses rabiscos para serem lapidados em casa e para entregar ao meu leitor o melhor de mim. Minha poesia é mais confessional e coloquial. Isso não quer dizer que não seja trabalhada, mas meu objetivo é ser entendida pelo menos quanto à ideia central do poema. Minha poesia não é hermética. Gosto de escrever meus poemas e guardá-los em um arquivo no computador chamado “livro novo”. Já lancei 3 livros (o primeiro artesanalmente) e publico meus poemas no Facebook, na página Atarantada. Além disso, frequento saraus porque adoro recitar. Quem gosta me procura para comprar o livro.

O que a poesia significa para você e como ela pode interferir e existir no cotidiano? Ela teria uma função?

A poesia siginifica minha libertação deste mundo tolo que vivemos, minha realização pessoal, meu prazer, é quase um vício. Não passo um dia sem ler um poema de alguém ou rabiscar um novo. Poesia está em todo lugar, mas a pessoa tem que ter os olhos de poeta para atribuir às imagens um olhar diferente. Acho que a principal função da poesia é passar para o leitor esse jeito diferente de se ver o mundo.

Qual a importância da existência da poesia? Onde ela está presente?

A importância da poesia é exatamente essa tradução do mundo de forma bela e nova para quem está lendo. Ela está presente em tudo que puder ser decodificado poeticamente, ou seja, as coisas do mundo externo e interno. Uma árvore pode vista de várias formas, a que eu vejo não é a que você vê, mas você pode se identificar com minha forma de olhar ou gostar dela.

Quem pode ser um poeta? De que maneira essa poética pode ser criada por pessoas entre os mais diversos estilos e profissões?

Qualquer pessoa pode ser poeta desde que desenvolva esse modo peculiar de tradução do mundo, mas é claro que existem os que fazem isso muito bem e os que precisam de mais leitura e trabalho para aperfeiçoar essa capacidade. Poesia não tem nada a ver com profissão. É dom, é busca, é tentativa e erro. Todo mundo na vida já escreveu alguma coisa, mas nem todos são poetas, apenas os que persistem, não porque querem mas porque não conseguem deixar de sê-lo.

O que você procura dizer aos leitores quando escreve?

Meus poemas são, em sua maioria, confessionais. Portanto, o que eu quero dizer ao meu leitor é que temos as mesmas dores, as mesmas ausências, a mesma forma intensa de se apaixonar. É muito comum eu ser abordada por alguém dizendo: “você me tocou, falou o que sinto”.


Residente em Brasília desde 1972, Noélia Ribeiro tem poemas publicados em diversas coletâneas, jornais e revistas brasileiras. Declama seus poemas em shows, saraus e movimentos poéticos realizados no DF e, eventualmente, em saraus no Rio de Janeiro. Formada em Letras pela UnB, lançou seu primeiro livro de poemasExpectativa em 1982. No final de 2009, lançou Atarantada (Editora Verbis), já na segunda edição, e, em 2015, lançou Escalafobética (Editora Vidráguas).


O VÍCIO DA DOR

A dor que rasga o peito

cobre do poeta o leito

de sangue e lágrima e

esvazia a anima

antes cheia de paixão

para que outro refrão

da dor que já vício

irrompa no papel ofício