Paulliny Gualberto Tort é talentosa em lidar com a escrita do cotidiano. Nas duas leituras recentes que pude fazer da autora, fui levada a passear entre o psicológico de seus personagens, sem a necessidade de um acontecimento mirabolante. Pude ler suas criações duas versões: um enredo mais curto, desenvolvido no conto Mirna, publicado na coletânea Novena para pecar em paz; e uma história mais longa, criada para o romance Allegro ma non troppo.

A autora é responsável por boas iniciativas, como a Movida Literária, que movimentou bares e cafés da cidade em boas conversas entre livros, autores e leitores. É também jornalista e comanda na rádio o programa Marca Página, onde também expande as possibilidades aos que produzem literatura na cidade.

(Foto: Marcello Casal)

Para Paulliny Gualberto, a escrita pode ser apresentada sem cerimônias, nas ruas, praças e calçadas. Livros são para todos e esse é um valor fundamental que ela quer compartilhar.

Paulliny Gualberto e o cotidiano maçante na escrita

No conto, Paulliny nos faz sentir a repetição insistente e a rotina que beira ao tédio em sua protagonista. Mirna transita entre personagens e lugares sem nome. O homem lhe chama, a menina quer atenção, a casa pede seus cuidados e a rua se expande em puro deserto de novidades.

Mirna parece ter nos olhos o reflexo da hora que não passa, ou dos instantes que se repetem. Uma calmaria desenfreada. O corpo, preenchido por sua própria inabilidade de se fazer presente, deixa de existir. Com frases curtas, linguagem seca e rápida, Paulliny Gualberto leva o leitor a transitar pelo labirinto de ansiedade e descaso com a própria existência que percorre o corpo de Mirna.

Uma família, uma casa, uma rua e um dia quente que pede sorvete. O conto é eficiente em nos prender à leitura e mostra que o mais cotidiano dos fatos pode render um bom enredo.

Um romance com a cara do cerrado

Em seu primeiro romance Paulliny Gualberto mostra destreza ao contar sua história pela perspectiva de um narrador masculino. O cenário é conhecido do leitor brasiliense, que se vê transportado às memórias de uma trilha nas cachoeiras, uma visita à Chapada dos Veadeiros e a solidão da estrada. No enredo, um homem em busca do irmão perdido entre a distância e vontade de se perder no nada.

(Foto: Marcello Casal)

A linguagem é limpa e sem excessos, com o característico texto ágil da autora. As descrições, lugares e pistas do psicológico de cada personagem também são enxutas.

É preciso se deixar mergulhar na história e imaginar um pouco do que o silêncio nos conta. Daniel transita entre presente e passado enquanto relembra a trajetória da família e busca reconstruir o presente.

O narrador personagem segue para a pequena cidade de Alto Paraíso e segue mostrando pequenos registros da família, das desavenças com o pai (que era um político importante) e da rotina desajustada com a mãe.

Os dois filhos, Daniel e João, um biólogo e outro músico, seguem trajetórias diferentes das imaginadas pelos pais. Daniel é um narrador irônico, que não tem medo de admitir os próprios fracassos e os desajustes de seu tempo.

A escrita e Paulliny Gualberto

(Foto: Marcello Casal)

A leitura é fluida e agradável e me desperta a vontade de que venham outros romances escritos por Paulliny. Enquanto brasiliense, me identifico com a secura da cidade, a vontade da estrada e as pequenas descrições que marcam a tão característica capital.

De que maneira a literatura poderia ser mais incentivada no país e na cidade? Como atrair e se conectar com mais leitores no mundo atual?

Para incentivar a Literatura, precisamos investir na produção contemporânea. Ninguém questiona a importância e o lugar dos clássicos, mas os autores que estão escrevendo agora é que atrairão novos leitores. Porque o prazer da leitura é identificação, é se ver representado no texto.

Portanto, é mais provável que um jovem se identifique com a narrativa do Daniel Galera do que com a do José de Alencar, por exemplo. A leitura dos clássicos, talvez, seja uma segunda etapa nesse processo. O importante é que a pessoa leia por prazer, não por obrigação.

O primeiro romance publicado

Sobre o que fala seu romance e o que motiva a sua escrita? O que te inspira?

Meu protagonista, Daniel, é um violinista que recebe da mãe uma incumbência: descobrir o paradeiro de seu irmão mais velho, João, desaparecido há dois anos. Para encontrá-lo, Daniel viaja para a Chapada dos Veadeiros e adentra um mundo estranho, habitado por aventureiros, gurus e belas mulheres.

A obra faz muitas referências às décadas de 1980 e 1990. Mas é o universo interno do protagonista que domina a narrativa, já que o livro é narrado em primeira pessoa.

Acho que toda Literatura nasce da angústia, nasce do não-resolvido. Por isso, uma das minhas motivações para escrever essa história foi a constatação de que toda família é permeada por conflitos, segredos e ausências.

Acredita que a produção literária de Brasília é forte e diversa? Essa produção encontra espaço e reconhecimento?
A produção literária de Brasília está se fortalecendo. Primeiro porque a cidade começa a mostrar uma identidade própria, o que aparece nas narrativas produzidas aqui. E também porque alguns autores de fora, que já têm certo reconhecimento, se mudaram para cá. Mas a produção local ainda fica um pouco à margem do circuito literário nacional.

 

A produção literária brasiliense teria alguma característica específica ou algum ponto mais forte?
Brasília é uma cidade que, organicamente, funciona de forma diversa da de outras capitais. Mas nossos autores mostram que estamos muito além da burocracia associada à cidade: a vida, aqui, extrapolou o que foi planejado nas maquetes. E isso acaba aparecendo na literatura.

É preciso ainda reconhecer que nossa escrita é de resistência, até por estarmos fora do circuito literário mais tradicional. (Paulliny Gualberto Tort)

Sobre a coletânea de contos

Qual a importância de uma coletânea escrita por mulheres, que fala de mulheres, no tempo atual?
Para mim, a importância da coletânea está no fato de ela ser totalmente escrita por mulheres. Por uma escolha da editora, foi decidido tratar de temas do universo feminino.

Mas acho que ela seria igualmente rica se tratássemos de quaisquer outros temas, pois nossos olhares serão sempre femininos, quer narremos a vida de uma dona de casa ou o drama de uma luta de boxe. Não é possível dissociar nossa condição de mulher daquilo que escrevemos, independentemente dos temas abordados.

A coletânea tem contos que mostram mulheres diversas, o objetivo era refletir a diversidade e individualidades das mulheres de nosso tempo e atemporais?
Em uma coletânea escrita por nove mulheres de gerações diferentes, com trajetórias e visões de mundo distintas, é natural que a diversidade apareça nos contos.

Cada uma de nós tem um projeto de escrita bastante particular, com objetivos próprios, e isso aparece nas narrativas da antologia. Acho que essa característica é uma consequência inevitável do projeto.

Diálogos com a literatura

Que diálogos você quer abrir com o seu conto e com sua escrita em geral? Com que leitores você busca dialogar?
Cada um dos meus projetos de escrita cumpre determinados objetivos, de modo que posso falar agora apenas deste conto. Como todo escritor trabalha com escolhas, a minha, neste projeto, foi evitar as violências gritantes, aquelas às quais todos reagimos com indignação.Preferi tratar de um conflito silencioso, de algo que em geral não costuma ser notado mesmo pelos observadores mais próximos.

A literatura tem esse poder de lançar luz sobre acontecimentos mínimos e o que fiz foi evidenciar um drama que poderia facilmente passar despercebido. Quanto aos leitores, escrevo para qualquer um, então não tem resposta. (Paulliny Gualberto Tort)

É possível modificar, ou abrir caminhos para mudança, sobre problemas estruturais da sociedade através da literatura?
A liberdade, da criação à fruição, é o substrato de qualquer manifestação artística. Portanto, eu jamais daria à literatura o fardo de resolver os problemas da sociedade. Mas, acredito, sim, que ela pode propor reflexões sobre determinados temas, o que abre caminho para que repensemos coisas dadas como certas, para que questionemos nossas verdades.

Mulheres entre as páginas de Paulliny Gualberto

Você costuma escrever sobre mulheres em suas criações ou gosta de buscar temáticas diversas? O que te atrai na escrita?
De modo geral, escrevo sobre as dificuldades nas relações humanas, sobre o desafio constante que é entender o outro e se fazer entender. Nisso, aparecem tanto personagens masculinas quanto personagens femininas. Mas é claro que, sendo eu uma mulher, minha perspectiva será sempre influenciada pela experiência do feminino.

Como é seu processo criativo de escrita? Ele foi diferente para a produção de um conto forte e sobre mulheres?
Trabalhar com um tema específico, tendo ainda um prazo de entrega do texto, é diferente de produzir para seus projetos pessoais. Sobretudo quando estamos lidando com uma coletânea, pois é necessário manter um diálogo com o conjunto da obra.

Você precisa manter um equilíbrio entre aquilo que quer fazer e aquilo que esperam que você faça, para se manter fiel tanto a si quanto ao projeto. (Paulliny Gualberto Tort)

Você se envolveu ou emprestou algo de sua personalidade e vivência ao conto?
Todo texto ficcional tem o envolvimento do autor. Caso contrário, seria impossível gerar empatia, verossimilhança. Existem leitores que gostam de procurar traços da biografia do escritor em sua obra, o que considero um fetichismo um pouco infantil.

É verdade que temos autores contemporâneos maravilhosos que trabalham com auto-ficção e não se furtam a emprestar suas trajetórias para o desenvolvimento de suas narrativas. Mas não é o meu caso. Não se trata de um texto confessional, de modo que minha vivência não está retratada neste conto.