O principal objetivo de coletivos como o Leia Mulheres, criado em São Paulo e com representantes atualmente espalhadas por diversos estados brasileiros, é ampliar o espaço e o reconhecimento das mulheres na produção literária. Em um país com maioria feminina e extensa produção intelectual e cultural feita por ambos os gêneros, é indispensável criar possibilidades para que mais leitores tenham acesso às obras produzidas por elas, que historicamente tiveram menos visibilidade e reconhecimento. É para preencher essa lacuna da literatura escrita por nomes femininos, que estes grupos trabalham.

Hoje você confere aqui a entrevista com Patrícia Rodrigues, jornalista brasiliense e uma das mediadoras do grupo que representa Brasília no projeto Leia Mulheres.


Entrevista//Patrícia Rodrigues – Leia Mulheres

Qual o seu envolvimento com a literatura?

Sou uma apaixonada por literatura desde criança. Se quisesse me encontrar no recreio da escola, poderia procurar na biblioteca. Comecei lendo clássicos infanto-juvenis como a série o Diário da Princesa (Meg Cabot) e, com o tempo, fui amadurecendo a leitura.

Quando e como foi criado o Leia Mulheres?

O Leia Mulheres surgiu em São Paulo, em 2014, após as criadoras Juliana Leuenroth, Juliana Gomes e Michelle Henriques se inspirarem na hashtag #readwomen2014 (#LeiaMulheres2014), da escritora Joanna Walsh. O que a autora propôs é que todos lêssemos mais escritoras. O motivo é simples: o mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem tanta visibilidade. Assim, o projeto começou em São Paulo e se espalhou pelo Brasil. Em Brasília, minha amiga, moderadora e também jornalista, Mariana Ávila, já acompanhava à distância e me convidou para uma parceria aqui em Brasília. O clube começou em setembro de 2015 e os encontros ocorrem sempre na segunda quinta-feira do mês, às 20h, na Livraria Cultura do CasaPark.

Por que motivos projetos como este são importantes para as escritoras? Acredita que essas iniciativas têm ajudado a aumentar a visibilidade da produção literária feita por mulheres?

O projeto possibilita que mais pessoas conheçam autoras que muitas vezes não seriam a 1ª opção de leitura. Com o aumento de demanda, aumenta a oferta. Essa ampliação do mercado pode fazer com que mais meninas se sintam motivadas a começar uma carreira literária. No grupo, temos tentado ler autoras de todos os lugares do mundo. Precisamos sair também do eixo EUA-Inglaterra. Tem obras fantásticas sendo produzidas na África, por exemplo.

Acredita que atualmente ainda seja grande a diferença de alcance e reconhecimento entre escritores e escritoras ou esse cenário já mudou? Ainda existe preconceito em relação a questão de gênero na literatura?

Infelizmente, os dados não são bons. De acordo com o livro Literatura brasileira contemporânea, da Regina Dalcastagné, publicado em 2012, 72% dos autores publicados no Brasil são homens, brancos, de classe média, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo, professores ou jornalistas. As mulheres continuam sendo minoria no mercado editorial. Têm-se a ideia- preconceituosa- de que mulher escreve apenas romance água com açúcar para outras mulheres, o que não é verdade. Uma das séries de fantasia mais vendidas no mundo foi escrita por uma mulher: Harry Potter. Para se ter dimensão da diferenciação entre homens e mulheres, J.K. Rowling precisou abreviar o nome para não parecer ser mulher e aí, então, ser aceita.

uma visão preconceituosa de que mulher escreve romance água com açúcar, mas a verdade é que mulher, assim como homem, escreve sobre tudo. Nos encontros discutimos sobre os mais variados temas: profissão, gênero, racismo, preconceito, maternidade, psicopatia etc.

O que poderia ser feito para que a literatura produzida por mulheres alcance paridade com a produzida por homens?

É necessário incentivo de todas as partes. As meninas precisam ser incentivadas a leitura desde pequenas, o governo precisa de políticas públicas para que as crianças tenham acesso aos livros. Uma família de classe média baixa dificilmente escolherá comprar um livro quando se falta comida.

O que tem te trazido mais satisfação em relação ao projeto?

A mudança de pensamento dos participantes. Não existe nada melhor do que debater gênero, maternidade e alguém dizer “poxa vida, não havia percebido isso. Faz sentido”. A cada encontro ocorrem quebra de paradigmas por parte de alguém, inclusive os meus próprios.

Você costuma ler mais livros escritos por mulheres atualmente? Busca esse filtro na hora de escolher suas leituras ou procura ler independente do gênero?

Para falar a verdade, nem lembro a última vez que comprei um livro lido por homem (Risos). Brincadeira, continuo lendo, mas numa frequência bem menor. No Leia Mulheres os participantes comentam sobre novas autoras e vou seguindo as indicações. No fim, leio 95% de obras escritas por autoras.

Qual sua autora preferida? (Se puder citar algum nome nacional e local também, seria ótimo)

Não tenho uma escritora brasileira preferida, mas gosto bastante do estilo narrativo da Lygia Fagundes Telles. Lemos ‘As meninas’ no Leia Mulheres e foi um dos encontros mais cheios, inclusive.  No cenário local indico ‘de olhos fechados’ as obras de Patrícia Baikal e Patrícia Colmenero. Não tem nada melhor do que se identificar com os ambientes conhecidos nas histórias. E, pra finalizar, por favor, conheçam as obras da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie! As narrações são de tirar o fôlego!


Sobre o Leia Mulheres

Para 2014 a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014) que consistia basicamente em ler mais escritoras. O mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem tanta visibilidade, por isso a importância desse projeto.

O grupo decidiu trazer isso para livrarias e espaços culturais, convidar a todos a nos acompanharem nas leituras de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas. O Leia Mulheres faz parceria com editoras, livrarias e instituições mas não há intermediários. Todo e qualquer contato apenas é feito diretamente pelas gestoras do projeto e pelas mediadoras das respectivas cidades.

Juliana Gomes
Juliana Leuenroth
Michelle Henriques
contato@leiamulheres.com.br