Pablo Amaral é um dos escritores da nova safra que publica de maneira independente. O brasiliense fez uma campanha de financiamento coletivo via catarse no ano passado e foi muito bem-sucedido, conseguindo todo o orçamento necessário para a publicação. Decidido a investir em novidades, o autor aproveitou as plataformas online para criar um booktrailer do livro, aumentando fortemente a divulgação na internet através do vídeo.

O livro levou seis anos para ficar pronto e sai do convencional ao homenagear o gênero terror como um todo, apresentando elementos que vão de casas mal-assombradas a maldições indígenas, com diversas surpresas espalhadas pelas páginas. A ideia de Pablo Amaral é mostrar que a literatura se renova e pode se mostrar presente nas mais diversas plataformas. A criação dos booktrailers exemplifica este processo.

O autor Pablo Amaral comemora as vendas de livro anterior

O gosto pelas histórias de terror vem da vontade de falar sobre instintos primitivos, como o medo das trevas e do desconhecido, e por apresentar personagens falhos, que cometem erros e não se encaixam necessariamente no papel de heróis. Conheça aqui um pouco melhor o autor e a obra!

Entrevista com o escritor Pablo Amaral

Qual o seu nome, idade e profissão?
Meu nome é Pablo Amaral Rebello, tenho 36 anos, me formei como jornalista, tendo trabalhado para jornais como O Globo e Correio Braziliense, mas também atuo como escritor, roteirista, produtor e assessor de imprensa.

Minha paixão sempre foi a literatura e, nos últimos três anos, trabalhei no departamento de comunicação da editora Intrínseca, o que me trouxe um grande aprendizado sobre o mercado editorial e seu funcionamento. (Pablo Amaral)

Você já publicou algum livro impresso antes? Quando começou a escrever?
Escrever sempre foi meu sonho e, desde pequeno, gosto de criar histórias. Entrei para o jornalismo muito pela oportunidade de escrever diariamente e aprender mais sobre a nossa realidade.

 

Como escritor, tenho trabalhos publicados nas coletâneas Prêmio SESC de Contos Machado de Assis (Edição 2005), Contos da Confraria (Bookmakers/2012) e Dragões (Draco/2012). Em 2015, lancei meu primeiro livro, Deserto dos desejos, em formato e-book, disponível na Amazon.

A experiência literária 

Como foi o processo criativo para Os lugares do meio? Em que se inspirou?
Os Lugares do Meio surgiu numa madrugada insone de domingo. Sem consegui dormir, com uma ideia me martelando a cabeça, peguei um caderno e comecei a rabiscar umas linhas tortas para ver se o sono vinha. Ele não veio. O que veio foi a história de um homem misterioso, que aparecia ao pôr do sol em uma estrada deserta pedindo carona.

Eram só dez páginas, escritas a mão, uma aventura breve e passageira que acendeu um pavio na minha imaginação. Como o personagem me ajudou a atravessar as horas escuras da madrugada, procurei saber mais a seu respeito escrevendo uma nova história. E como ele insistiu em manter o próprio nome em segredo, dei-lhe o título de Guardião das Estradas. (Pablo Amaral)

Criei uma lenda ao seu redor, segundo a qual os viajantes que lhe dessem carona seriam protegidos dos perigos do caminho e aqueles que o deixassem para trás pagariam um preço alto por isso. O livro segue justamente os passos de um casal que não lhe deu carona e o conto original, que deu origem a esse universo, é uma das recompensas para quem participar da campanha.

Experimentação além das páginas

Como surgiu a ideia de fazer o booktrailer? Acha que é um bom diferencial? Como tem sido o retorno?
A ideia para o booktrailer apareceu por acaso. Quando estava organizando a campanha para o Catarse, perguntei ao meu primo, Bernardo Rebello, que também atua como diretor cinematográfico, se ele poderia me ajudar a fazer um vídeo para colocar na página do livro. É de praxe nessas campanhas ter vídeos explicando um pouco o funcionamento do processo, para facilitar a adesão dos colaboradores.

Eu queria fazer algo um pouco diferente e meu primo me incentivou a produzir um vídeo que revelasse mais da natureza do livro. Daí, decidimos fazer dois vídeos: um mais institucional, só comigo falando da campanha, e o booktrailer, que virou a menina dos nossos olhos e o principal meio de divulgação do livro.

A produção na internet

Como foi a produção do booktrailer? Você escolheu as cenas, participou do processo de filmagem?

A produção foi trabalhosa, mas muito divertida. Conseguimos reunir uma galera bacana, que comprou a ideia do livro e aceitou trabalhar de graça, no maior sentimento colaborativo que tem tudo a ver com essa história de crowdfunding e financiamento coletivo. Eu escrevi o roteiro do booktrailer, ajudei na escolha dos cenários e sugeri algumas cenas adicionais, mas a direção e edição ficaram todas com o Bernardo, que modificou o que achou necessário e deu o formato final para o vídeo.

Foi uma produção conjunta. E eu não só participei das filmagens como representei o papel do Guardião das Estradas para o booktrailer. Quer forma melhor de vestir a camisa da campanha do que encarnar seu personagem principal? (Pablo Amaral)

O terror é seu gênero preferido? Como é o processo de escrita neste gênero?
Não tenho necessariamente um gênero preferido. Gosto de histórias de terror por mexer com instintos primitivos, como o medo das trevas e do desconhecido, e por apresentar personagens falhos, que cometem erros e não se encaixam necessariamente no papel de heróis. Além disso, adoro um bom mistério, o que me leva a não oferecer todas as respostas que o leitor pode querer saber. Como escritor, não fico satisfeito se não tiver uma pulga atrás da orelha.

Mercado editorial e lançamento independente

Qual a importância de lançamentos e projetos independentes como este para a produção literária atual?
Acho fundamental. Dizem que todo livro é um grito engarrafado e isso vale em dobro para as produções independentes, especialmente em um período turbulento como o nosso, com a cultura sendo cada vez mais colocada em décimo terceiro plano. Agora, claro, acho importante que os artistas independentes se esforcem para apresentar o melhor trabalho possível ao seu público, ainda mais quando se fala em literatura.

Não basta escrever, achar que está bom e publicar de qualquer jeito. Além de amigos e familiares, é importante buscar opiniões de profissionais do mercado, sejam eles editores, revisores ou escritores. Escrever é reescrever e, no final do dia, é o seu nome que vai na capa do livro.

Você costuma ler outros autores da cidade? Acredita que o mercado literário é muito restrito atualmente?
Retornei para Brasília recentemente, após seis anos no Rio de Janeiro, e ainda não estou inteirado do que tem saído por aqui. Gosto muito dos quadrinistas daqui, como o Caio Gomez e o Lucas Gehre. Também curto as poesias do Nicolas Behr.

Sobre a minha visão do mercado literário, acredito que ele já foi mais restrito no passado. Hoje existe uma abertura maior para quem quer mostrar seu trabalho. As editoras sempre vão estar de olho nas modas do momento e nos interesses do público. E publicar nunca foi tão fácil, seja por plataformas digitais ou impressas.

Financiamento coletivo

Por que motivo escolheu o catarse para sua publicação?
Foi uma evolução. Comecei publicando contos em coletâneas. Passei para um projeto em uma mídia digital e queria ver Os Lugares do Meio como livro impresso. Gosto da filosofia do Catarse de buscar apoio dos próprios leitores para viabilizar o seu projeto. Assim como gosto de botar as mãos na massa e conhecer todos os estágios da produção de um livro.

É um aprendizado e acho que aprender nunca é demais. Além disso, se preciso levantar uma bandeira pela qual preciso lutar, que seja a da literatura.


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