Eu, apaixonada que sou pelo cheiro, pelo barulho e pelos ares da maresia, fui pega de surpresa pela imersão criada por Ernest Hemingway em O velho e o Mar. Há algo de silêncio, força, vontade e solidão que me percorre entre todas as páginas. Um dos pilares da literatura contemporânea, o autor consegue nos fisgar desde o início. Com uma linguagem simples e direta, Ernest me desloca para a calmaria e a intensidade das histórias que se enxergam na beira da praia.

Vou de encontro ao mar, que aparece como personagem crucial do enredo e mostra sua plenitude cheia de artimanhas. Ele dá e ele tira. Enquanto leitora, encontro-me a navegar em alto-mar no barco simples de um pescador azarado.

 

O velho Santiago não pesca um único peixe há 84 dias e é visto com desconfiança pelos moradores da região. O menino que o ajudava na hora da pesca, e que havia se tornado um grande amigo, o jovem Manolin, foi forçado pelos pais a trocar de barco.

Na manhã do 85º dia, Santiago acorda com a certeza dos que pressentem a sorte quando ela se aproxima de repente. Lançado ao mar em companhia única do próprio barco, o pescador fisga um peixe de peso descomunal. Os braços gastos de Santiago encontram grande resistência com a força do animal. Por três dias, o velho pescador deixa que o barco seja arrastado pelo peixe e lança-se mar adentro ao sabor das ondas.

A solidão e a calmaria na força do marinheiro

Santiago ama o peixe com que luta e trava embates diariamente. Ao trazê-lo para a superfície, o pescador inicia o árduo trabalho de iniciar o caminho de volta para casa. Tal e qual a própria existência, o velho enfrenta a dificuldade de levar em frente o peso daquilo que conquistou. É uma história sobre o homem, seus pensamentos, sonhos, tristezas e pequenas alegrias. Entre o vai e vem das ondas, conhecemos de perto o que sente o velho ao enfrentar tudo o que ama e teme em seu meio de sobrevivência: o mar.

“O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem. (…) Falam de um mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar como feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores. Mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evita-lo. ´A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres´, refletiu o velho.

A cor das páginas

O Velho e o Mar é todo ilustrado e suas páginas se preenchem entre o enredo bem colocado, os desenhos em preto e branco e o azul que imagino como cor. Posso sentir o cheiro do peixe levado no barco e a agonia do homem que vê sua carcaça ser pouco a pouco despedaçada. Ao chegar à praia, quase nada lhe resta. O corpo, do homem e do peixe, foram modificador ou levados pelos dias passados entre a água salgada. Sinto o sol e o sal da pele.

O livro é pequeno em tamanho e grande em história. Com ilustrações e letras não tão pequenas, acumula 124 páginas. O ritmo da leitura de O Velho e o Mar mistura à calmaria do horizonte, à agonia dos tempos de espera e à rapidez das horas de luta.

É preciso permanecer atento, manter os olhos tranquilos, ainda que em constante vigia, assim como fazemos ao mergulhar na água salgada. A leitura flui naturalmente e Ernest nos mostra a eficácia da língua quando utilizada sem muitos floreios.


Tenho na estante a edição da foto ao lado, que é a 90ª edição, de 2016, com tradução de Fernando de Castro Ferro e publicada pela Bertrand Brasil. A obra é uma dessas pequenas leituras essenciais. Ela é cheia de pequenos prazeres que nos fazem transbordar entre as páginas. É preciso um instante de respiro ao terminar e sentir o que nos vem.


O Velho e o Mar em quadrinhos

Recentemente vi uma nova versão em formato de HQ nas livrarias (capa ao lado). Ainda não pude comprar o novo material ilustrado, mas adianto que está lindo, com ilustrações riquíssimas. Thierry Murat propõe uma versão muito pessoal da obra. O despojamento e a contenção de seu estilo combinam de maneira admirável com a deriva solitária do velho pescador.


O Velho e o Mar no cinema

O livro teve seus direitos comprados em 1958 pela Warner Brothers, que produziu uma adaptação homônima para o cinema. Dirigido por John Sturges e estrelado por Spencer Tracy, o filme tem roteiro escrito por Peter Viertel. A adaptação segue fielmente a obra original.


O autor

Hemingway ganhou um prêmio Pulitzer de ficção pela obra. Um ano depois, foi nomeado com o prêmio Novel de Literatura. Ernest Miller Hemingway (Oak Park, 21 de Julho de 1899 — Ketchum, 2 de Julho de 1961) foi um escritor norte-americano. Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Esta experiência inspirou uma de suas maiores obras, Por Quem os Sinos Dobram. Todas as personagens deste escritor se defrontaram com o problema da “evidência trágica” do fim. Hemingway não pôde aceitá-la. A vida inteira jogou com a morte.