(Ilustração: Caio Gomez)

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O Senhoritas Café

Retomo hoje uma matéria que fiz ainda em janeiro deste ano, o assunto é persistente. O Senhoritas Café foi novamente multado (desta vez no valor de 8 mil reais). O motivo? O café, que é palco para a chegada de diversas produções literárias brasilienses, abrigou o lançamento do livro de um poeta da cidade. O argumento é de que o som de conversa do público presente teria sido alto demais. Renato Fino, dono do café cultural afirma: “O senhoritas resiste e ainda quer resistir”. Qual o espaço da arte na cidade?

Propagar a criação musical legitimamente brasiliense, ocupar espaços públicos que comportem a livre expressão artística, promover a ideia de que música é arte, não barulho, e possibilitar o encontro entre toda a gente que vive na cidade, é o que músicos e artistas que vivem e fazem carreira em Brasília esperam para 2016. Após a turbulência no cenário musical em 2015, já iniciada nos anos anteriores com as discussões da Leido Silêncio, e a diminuição de locais para apresentar música ao vivo na cidade, artistas locais discutem as novas possibilidades para apresentar sua criação e manter viva a música de maneira pacífica, promovendo a boa convivência entre os brasilienses. A expectativa é encontrar um ponto de equilíbrio saudável entre moradores, músicos, artistas e estabelecimentos comerciais.

Alguns bares tradicionais no circuito musical brasiliense foram fechados (como o Balaio Café e o Schlob), outros multados (como o Pinella e outros estabelecimentos da 408 norte) e alguns tiveram de suspender de vez as apresentações de música ao vivo. O diretor do sindicato da área de hotéis, bares, restaurantes e similares (SINDHOBAR) de Brasília, Jael Antonio da Silva, declara que os donos de bares da cidade se reuniram com o atual governador, Rodrigo Rollemberg, para debater novas possibilidades e levantar questões que afligem o setor. “Ele constituiu um grupo de trabalho que vai se reunir na primeira quinzena de janeiro para discutir essa questão. A lei terá que contemplar a música e os empresários terão que fazer algumas adaptações em seus estabelecimentos, mas isso tudo já vai melhorar quando a questão do nível de decibéis permitido for reformulada”, declara Jael. O diretor conta que a ideia é criar uma alternativa que seja executável e viável para todos os lados, com horários estabelecidos, mas que músicos possam continuar a se apresentar. “A cidade não pode morrer, ela é um polo cultural muito importante, com grandes nomes musicais”, afirma.

RenioQuintas_por.Marcelo Dischinger

O instrumentista Rênio Quintas

Rênio Quintas, instrumentista e produtor musical já tradicional no cenário brasiliense, afirma que Brasília é uma cidade de amplos espaços, pensados para que a população pudesse aproveitar da melhor maneira e lembra: “Acredito que a melhor forma seja justamente aproveitando a criação artística cultural, claro, com todos os cuidados necessários, mas esse movimento atual é atrasado e busca um silêncio impossível de se alcançar sem que sejam cerceados certos direitos”. O artista acredita que para viver bem em uma cidade é preciso estabelecer pactos de convivência, respeitar a arte e a cultura como ferramenta de desenvolvimento humano e diferenciar o que é barulho daquilo que é música. Quintas declara ainda que a rua, por ser pública, deve ter o seu uso coletivo, de forma a atender o interesse e desejo da população. “A característica da nossa capital é estarmos na rua, principalmente para transformá-la em uma cidade boa para se viver. Eu cheguei em 1960 na inauguração de Brasília. A gente ocupava os gramados com futebol quando criança e mais tarde quisemos ocupar com música, queríamos fazer um som ali na rua, assumir a cidade”, declara.

O secretário de cultura do Distrito Federal, Guilherme Reis, lembra que esse é um assunto antigo, que já se arrasta há alguns anos na cidade e afirma achar fundamental que seja implementada uma nova legislação, que contemple as normas de saúde e leve em conta a importância do silêncio na vida das pessoas mas que, ao mesmo tempo, incentive os interesses culturais e de entretenimento da cidade. “Há uma intolerância crescente de parta a parte. Tanto de moradores e prefeituras que querem passar a régua e restringir a atividade até aqueles que acham que somos pessoas livres e podemos fazer o que queremos. Tem que ter legislação mas ela está defasada, é preciso avançar, é preciso uma legislação mais moderna em ocupação de espaços públicos”, afirma o secretário. Guilherme Reis conta que a ideia principal é criar uma proposta de legislação que envolva músicos, sociedade civil, sociólogos urbanistas e engenheiros acústicos. O secretário acredita que seja preciso retomar as ações em relação ao assunto o mais rápido possível e fazer avançar, encontrando bons parâmetros de convivência. “Os trabalhos vão ser retomados em janeiro, por ordem do governador”, afirma.

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Batalá, grupo de percussão brasiliense

Renato Fino é escritor, músico e poeta, dono do Senhoritas Café (408 norte) e criou o movimento Quem desligou o som?, em prol da música ao vivo em bares, restaurantes e locais públicos do DF e afirma que o maior foco do movimento tem sido justamente a votação desse novo projeto de lei, que incentive o olhar profissional em relação à música. O escritor acredita que o primeiro passo é readequar a lei à realidade cultural da cidade. “O turismo aqui é feito em bares, cafés, restaurantes. O que faz mal para a saúde é o barulho de trânsito, caminhão de lixo, aeroporto. Defendo o direito das pessoas poderem se sentar em bar para conversarem, a cidade é feita de pessoas”, afirma. Assim como o secretário de cultura do DF, o diretor doSINDHOBAR e demais artistas da cidade, Renato Fino acredita que a revisão e reestruturação da legislação atual é fundamental, levando em conta a questão do barulho, da saúde dos moradores e da criação artística local, para que a cultura da cidade seja preservada e a população possa conviver de maneira harmônica, preservando os direitos de todas as partes envolvidas.

Retrospectiva de 2015

Carnaval Silencioso

Inspirado nas reclamações de moradores que moram em comerciais, ao lado de bares e restaurantes, pensando em incluir uma proposta divertida para chamar atenção para o problema, a Andaime cia. de teatro criou o Carnaval Silencioso. No dia 19 de dezembro a festa funcionou assim: o set ao vivo do DJ Oops será transmitido via rádio FM 93.2, os foliões devem sintonizam seus aparelhos, colocar o fone de ouvido e ir dançar e brincar no carnaval fora de época.

Lei do Silêncio

Criada e sancionada em 2008 a Lei do Silêncio estabelece que o barulho em área residencial próxima a comércios não pode ser superior a 55 decibéis durante o dia e 50 decibéis durante a noite. Desde sua criação alei tem sido contestada pela classe artística do Distrito Federal, que tenta renegociar os termos da lei para uma melhor convivência entre toda a população, sendo que grande parte dos músicos e demais artistas não considera viável esse limite de som. O secretário de cultura, Guilherme Reis, declarou que a discussão a respeito da lei precisa ser feita de maneira mais técnica e o atual governador ordenou que os trabalhos sejam retomados na primeira quinzena de janeiro.

Bares do baixo Asa norte

Operação realizada no dia 17/12 para coibir o uso de área pública na entrequadra da 408 norte e exigir o cumprimento da Lei do Silêncio causa repercussão entre artistas e moradores. No dia seguinte o Governo doDF emitiu uma nota defendendo a operação, mas admitindo que os procedimentos adotados deveriam ser reavaliados. Clientes que estavam presentes nos bares se declararam constrangidos com a ação.

Balaio Café e Schlob

O fechamento do tradicional Balaio Café, que abrigava um cineclube e recebia apresentações de música, teatro e lançamento de livros causou comoção entre os frequentadores, que realizaram uma grande despedida durante todo o domingo (dia 20/12) para celebrar os 10 anos de atividade. A empresária Jul Pagul anunciou o fechamento permanente no dia 16/12, alegando prejuízos econômicos decorrentes das multas pela Lei doSilêncio. Menos de 15 dias depois, o Schlob, um dos mais tradicionais bares da Asa Norte, também anunciou o encerramento de suas atividades. O bar, que funcionou nos últimos 26 anos, se despediu do público com um show do POP Hazz Trio, no dia 29/12.

Praça da 410 norte

Ação da polícia militar causou revolta entre moradores da 410 na noite do dia 23/12, quando por volta das 20h30 uma denúncia anônima levou um grupo de jovens que tocava violão e instrumentos de percussão até a delegacia. Depois de terem sido levados por fazerem barulho na praça da quadra, os jovens foram liberados após registro na delegacia. A PMDF informou que qualquer excesso feito pelos policiais seria devidamente apurado. Nos dias seguintes foi organizada uma manifestação com músicos, instrumentistas, cantores e diversos brasilienses na mesma praça.

Matéria originalmente publicada no jornal Correio Braziliense, em janeiro. Confira no link abaixo:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/01/11/interna_diversao_arte,513513/artistas-de-brasilia-se-movimentam-para-musica-e-a-arte-continuem-a-o.shtml