Somos 30 espectadores na pequena BT-16, mais uma das salas de aula em chão de madeira do departamento de Artes Cênicas. É tempo de Cometa Cenas e a gente corre de lado a lado para não deixar nenhum espetáculo passar despercebido. Tenho um carinho grande pelas peças da disciplina de direção, é quando carregamos nas mãos toda a responsabilidade de mostrar algo que caracterize o nosso próprio modo de criar. O Henrique resolveu falar de feminismo, resolveu ele, um homem, escrever e falar sobre a luta das mulheres. Hm… A princípio nos parecia mais claro torcer o nariz, como saberia, ele, debater uma vivência absolutamente nossa? Mas ele soube.
 
Escrito por Simone Beauvoir no alto de seus 41 anos, em 1949, o livro O segundo sexo aparece como um marco do debate da história da mulher na antiguidade e faz um recorte de como, e para que, as mulheres eram criadas. A obra causou polêmica na época de sua publicação e foi nela que Henrique se inspirou para causar transformação, reflexão, identificação e visibilidade no palco. Escutei alguns barulhinhos característicos de choro ao longo da apresentação, fungadas, risos nervosos; significa que o texto chegou ao público de maneira eficiente. A história foi contada.
 
Da primeira vez que o li o texto, ainda durante nossos encontros na disciplina de direção, lembro-me de ficar revoltada com o personagem da Mocinha Bonita. A mocinha fazia rimas, era delicada e sorridente e parecia, devido a isso, ser a personificação da bobagem e do estereótipo que uma pessoa rasa parece ter. Argumentamos, debatemos, falamos alto. A sala era repleta de mulheres e questionamos prontamente o estereótipo do que era ser uma mulher bacana. O feminismo é para libertar a todas nós, de todas as maneiras, crenças, preferências, tipos, roupas, carreiras e poéticas. Henrique nos ouviu com atenção e gentileza. No palco, três mulheres. A mocinha bonita nos ensinou uma porção de coisas na noite de quinta-feira. Foi bonito vê-la se transformar. Enquanto isso, na mulher moderna, enxergamos nossos medos, receios e responsabilidades. Quanta coisa a fazer, quanto pedaço de mundo a conquistar! E em quem nasceu mulher sob seus próprios olhos, enquanto lutava para que os olhos dos outros a enxergassem como tal, entendemos que, por fim, todas as lutas se encontram juntas em algum ponto, seja ela qual for.
 
Ao fim do espetáculo foi possível entender que todas nós éramos as três, e as três eram todas, cada uma de nós.

Espetáculo: O segundo sexo para leigos

Direção, texto e dramaturgia: Henrique Raynal

Elenco: Amanda Moraes, Nina Roberto e Tainá Cary.

 

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Confira aqui fotos da preparação e dos abraços que surgiram após o espetáculo