Correr o dia a céu aberto e empoeirar os pés até que a terra se misture ao próprio caminhar. Respirar pela primeira vez sem afogar-se em nostalgia e permitir que se abram e deixem-se expandir todos os vazios, até que te façam parte do próprio reconhecer. Acordei um dia e não era mais menino. Estava algo sério, algo entorpecido, algo desacreditado, algo envelhecido. Engoli o café frio e tratei logo de me apressar. E assim, perdido do menino, caminhei de encontro àquele tempo em que todo o tempo parece não bastar. Desprendido da meninice permaneceria inerte, enebriado pelo próprio caminhar. Dormi um sono sem sonho, sem nuvem e sem mistério. Acordei então sem ideia e com um extremo de vazios que teimavam em pulsar. Esbarrei na caixa azul e dourada do menino, encontrei a coleção de pedras, rosas, brancas, amarelas. Cada uma representava a certeza de ter me preenchido com algo, ainda que aparentemente sem uso, encontrado e recolhido de certo lugar. Peso, cor, cheiro, textura. A coleção dos passos dados e a certeza de que o menino não nos deixa, apenas repousa, e aguarda o homem lhe despertar.