No desfiladeiro das canções mortas escorregavam pelo penhasco todos os instantes em que, famintos de vontades, não pudemos nos pertencer e recriar. Por lá despencavam nossos mais bonitos amores, nossos medos antigos e os sonhos estagnados. As criaturas que por ali viviam, esparramadas ao chão, envoltas em terra, eram alimentadas por nossas velhas e resguardadas coragens. Mordiam avidamente cada pedaço e digeriam todo espaço de convicção que nos pudesse restar. Por lá, olhos resignados viam rolar seus bilhetes de amor, as viagens não feitas, os destinos não conquistados, a promessa dos dedos entrelaçados, as páginas não escritas. Do alto, bem na ponta, era possível equilibrar-se em uma pedra pontuda e instável, onde, amedrontados,  os moradores assistiam ao desfile passar.

Os ritmos esquecidos tentavam bailar em seus próprios desejos de não se deixar acabar. Faziam sons ensurdecedores para que, do alto, algum opaco par de olhos os pudesse ver e algum rosto enrugado os pudesse escutar. Um a um, os humanos convictos de suas próprias inverdades, insatisfações, insignificâncias e irritações, atiravam abaixo mais algumas pedras sem nem mesmo a vontade ingênua de observá-las rolar. Lá de cima os amores morriam aos poucos, desconstruídos em cada pequeno e relevante ponto a se desalinhar. Como doía. Alguns humanos, na tentativa de poupar os olhos e a pele das despedidas prolongadas, cortavam os mais bonitos risos e as mais bonitas sensações em uma única facada, direto das raízes que não tiveram uma única chance de se deixar criar. Jogavam de cima moedas, na esperança opaca de que pelo caminho, o metal segurasse os sonhos que teimavam em escapar. Olhavam para frente, olhos retos, pupila contraída, preocupações dilatadas.

Do outro lado, distante do desfiladeiro, onde ainda era possível escutar o eco de todo e qualquer som, as canções não-mortas se empenhavam em continuar o compasso ou descompasso ao se recriar. Um dia, um homem abriu seus braços e deixou-se desequilibrar. Virou para o lado a cabeça e, invisível a todos os moradores do desfiladeiro das canções mortas, encontrou o ponto estável para caminhar. Tendo olhado para cima e para todos os possíveis lados viu que era branco, azul e alaranjado o céu que nunca antes pudera enxergar. Entre as poeiras do caminho, escutou outra vez uma canção viva, e sabia, era agora possível deixar-se meter os pés por fora pontudas pedras e, sabiamente, delirar.

(Foto: Isabella de Andrade)