unnamedComo a maior parte das pessoas, eu só fui ter contato com o feminismo – ou com esse “título”, já que, olhando para trás, eu percebo que não tive outro caminho possível além de uma “conduta feminista” – quando entrei em uma universidade federal. Só essa frase, já mostra o despreparo de instituições – de Ensino Fundamental, de Ensino Médio, e até faculdades e universidades privadas – em tratar de um assunto, ou melhor, de uma luta histórica, tão fundamental na vida de toda – eu disse, TODA – mulher, e da sociedade de maneira geral.

Na frase, também está embutido o privilégio que é saber que a luta de emancipação da mulher tem um nome. Que sua autonomia não se trata só de uma batalha individual, que sua sobrevivência, embora tão enraizada em uma estrutura de guerra que muitas vezes acaba por não ser vencida, é uma questão pública, uma questão coletiva e, acima de tudo, uma questão política.

Poder se autodenominar feminista é um privilégio que só a educação pode nos possibilitar. Quando me refiro à educação, falo da educação emancipatória e libertadora, sim, aquela que nos é vetada durante a maior parte da vida. Quando digo que “conheci” o feminismo na universidade, não foi nas salas de aula, com os professores abusadores e machistas, não foi decorando datas e teorias, não foi sendo silenciada por outros colegas, em sua maioria homens brancos, cisgêneros, heterossexuais e de classe média. Eu aprendi sobre o feminismo circulando pelos ambientes diversos da universidade, os corredores e áres de convivência, nos debates articulados por grupos pequenos das dependências capengas do sistema educacional brasileiro. Eu aprendi sobre o feminismo sendo puxada pelo braço nos happy hours depois da aula, por desconhecidos e colegas que não respeitavam meu direito de escolha, que achavam normal encostar no meu corpo sem me pedir autorização. Eu aprendi sobre o feminismo quando deixei de ir ao banheiro durante as aulas da noite depois que uma menina foi violentada na cabine. Eu aprendi sobre o feminismo depois que uma menina foi assassinada no próprio campus dois dias depois do Dia Internacional da Mulher e as pessoas, em geral, continuaram agindo como se nada tivesse acontecido e chamando de “mal amadas” as outras alunas que se mobilizaram, junto com professoras, para realizar rodas de conversas e debates sobre a segurança da mulher na universidade.

liberdadeEu aprendi, primeiro,  sobre o feminismo amplo, como uma luta e uma palavra homogêneas. O feminismo enquanto um conceito que abarcasse o todo. Com os anos, leituras, vivências e, especialmente, ouvindo mulheres falando a partir de seus lugares de fala – porque o academicismo não é suficiente por si só -, eu entendi que imaginar o feminismo como um movimento uniforme era não só tentar mascarar todas as demandas, necessidades e diferenças intragênero, mas também assumir um lugar de fala superior: o de mulher, branca, cisgênera e de classe média. Essa hierarquia, construída a partir da lógica da colonização, passou a valorar corpos de acordo com a seguinte lógica raça – sexo –  sexualidade – e mais à frente, também a partir da classe social e da identidade de gênero – não pode ser invisibilizada. Não pode ser mascarada. Está mais do que claro, pela história da sociedade do capital, que certos corpos valem mais do que outros. Que determinados corpos estão mais sujeitos à solidariedade e à justiça do que outros – e o contrário mais ainda. E dentro do feminismo, foi ficando cada vez mais claro que as demandas das mulheres negras eram diferentes das demandas das mulheres brancas, que a demanda das mulheres lésbicas, bissexuais e pansexuais, eram diferentes das demandas das mulheres heterossexuais, que as necessidades do transfeminismo divergiam da estratégia política da cisgeneridade. Que existiam lugares diversos a serem exigidos e reconstruídos.

O desvelar do feminismo é uma coisa extremamente gradual. Não acontece de um dia para o outro e não é um caminho a ser percorrido solitariamente. É mais exercitando a audição do que pregando comportamentos e condutas que, muitas vezes, servem apenas para você. É uma desconstrução, acima de tudo. E que estará acontecendo sempre, enquanto estivermos dispostas a nos abrir para opiniões diversas e até divergentes. É procurar formas e alternativas para derrubar canônes e depois encontrar, coletivamente, outras estruturas. Entender a mutabilidade das coisas e respeitar até o fim. Não adianta pregarmos a onda de gratidão e sororidade se continuarmos sendo aquelas pessoas que só vêem validade nos padrões e se esquecem do quão diversas e enriquecedoras são as pessoas: existem mulheres negras, existem mulheres lésbicas, existem mulheres periféricas, existem mulheres trans, existem mulheres bis, existem mulheres gordas, existem mulheres magras, existem mulheres cis, existem mulheres brancas, existem mulheres hétero, existem mulheres. E o fascismo se articula a partir de um regime: o do silenciamento. Não emudeça outras mulheres e assim nós vamos nos ajudando e reconstruindo.

Fica a dica para quem quer conhecer um pouco da luta feminista nos Estados Unidos a partir dos anos 60. O documentário “She’s Beautiful When She’s Angry”, disponível no Netflix, conta um pouco da história da liberação feminina no país, trazendo um recorte interessante de raça e sexualidade. É claro que a história no país tem outros desenrolares – e que essa história é ininterrupta porque temos que, cada vez mais, reforçar e exigir nossos direitos -, mas isso fica para uma próxima oportunidade: