Em 2016 participei de uma mesa redonda para debater a respeito das publicações independentes na Bienal do livro e leitura aqui de Brasília. Chovia muito naqueles dias, a produção teve que mudar o espaço de debate de lugar na última hora e o barulho da Bienal era grande. Eu falava para um público pequeno e ali, entre as cadeiras arranjadas improvisadamente ao lado de fora do auditório, uma menina de óculos, vestido e meia-calça prestava atenção a tudo com cuidado. Mantinha os olhos grandes sempre generosos aos quatro componentes daquele pequeno debate e demonstrava interesse pela literatura. Pensei se tratar de mais uma jovem menina apaixonada por livros e interessada em pensar nos seus primeiros escritores independentes, mas era a Beatriz.

  

Escritora jovem e uma das revelações da literatura brasiliense, Beatriz Leal tinha ido ao mesmo evento para participar do debate seguinte, onde falaria exclusivamente de seu livro, Mulheres que mordem, indicado ao prêmio Jabuti naquele fim de ano. Com cara de menina e jeito tímido a escritora e jornalista mostrou força e habilidade com as palavras em seu primeiro livro. A publicação foi lançada em março de 2015 de maneira independente com o sistema de crowdfundin, mostrando o quanto o acesso de novos autores pode revelar bons talentos.

A ideia inusitada e aparentemente distante do cotidiano de uma jovem brasiliense veio da leitura de uma matéria que relatava a história de mulheres que tiveram sua história marcada pela ditadura na Argentina. A matéria que serviu como ponto de inspiração foi publicada na revista The New Yorker e falava das avós da Praça de Maio, que buscam os netos, filhos de cativos durante a ditadura e entregues para a doção depois do assassinato dos pais.

A narrativa foi escrita a partir da visão de quatro personagens, que dão vozes e estilos diversos à escrita: uma mãe adotiva de Buenos Aires, uma argentina jovem que vive em Brasília, um torturador da ditadura e a mãe de uma menina desaparecida. O enredo se apoia em um tempo trágico e hostil da história da América Latina e Beatriz mostra habilidade ao tornar a narrativa leve e de fácil compreensão.

A escritora conta que criou seus personagens ainda sem saber até aonde eles chegariam. Quando se deu conta de que o material poderia render um romance, criou uma cronologia do que deveria acontecer na história.

“Na época, eu tinha recém comprado uma bicicleta, e queria andar com ela. Aí vinculei esse prazer ao “labor” da escrita: todos os dias, depois do trabalho, eu ia pra algum canto de Brasília, de bike, só com meu computador (sem celular, sem internet) e escrevia pelo menos uns três capítulos”.

O romance de 115 páginas rendeu uma indicação ao Prêmi Jabuti, uma das maiores premiações literárias do país e a jovem escritora conta que se sentiu emocionada. “Eu estava em uma aula de cursinho pra concurso quando fiquei sabendo. Como se os mundos se encontrassem. Meu lado burocrata-mundo real-trabalho com meu lado artista-mundo surreal-quero-escrever-pra-sempre”.

Beatriz Leal conta que já pensa em novos personagens, mas ainda se sente insegura quanto às publicações. A dificuldade principal ainda é bancar a própria impressão dos livros, de maneira independente. Esperamos que sua próxima criação possa chegar aos leitores e que a literatura brasiliense continue a render bons frutos.


Confira aqui uma entrevista exclusiva com a autora:

Como foi o processo criativo para escrever seu primeiro livro?

No início, não tinha muito bem um processo. Fui criando personagens meio que sem saber aonde eles iam chegar, sem saber se seriam contos independentes, etc. Comecei com a Elena (mãe adotiva) e a Laura (neta). Depois a história ficou mais clara na minha cabeça e comecei a rascunhar a Rosa (avó). Até então, eu não tinha nenhuma regularidade pra escrever, nem metas… Quando me dei conta de que havia material pra criar um romance, fiz uma cronologia e uma timeline das coisas que tinham que acontecer pra história se encaixar.

A partir disso, criei uma maneira de manter a disciplina pra conseguir finalizar. Na época, eu tinha recém comprado uma bicicleta, e queria andar com ela. Vinculei esse prazer ao “labor” da escrita: todos os dias, depois do trabalho, eu ia pra algum canto de Brasília, de bike, só com meu computador (sem celular, sem internet) e escrevia pelo menos uns três capítulos. A peculiaridade era como eu decidia aonde iria: por ser muito indecisa, acabei colocando em uma caixa pedaços de papel com endereços aonde, da minha casa, eu conseguia chegar de bike, e que fossem adequados para escrever (fotos anexas). Com essa rotina, consegui terminar o livro.

 

As avós da Praça de Maio

Como foi ter sido indicada ao jabuti e o que isso mudou na sua trajetória literária?

Foi uma emoção incrível. Inscrevi-me mais pra que o livro chegasse à banca avaliadora. De uma forma ou de outra, aquelas autoridades da literatura brasileira estavam “obrigadas” a ler o livro. Não imaginava mesmo que poderia ganhar. Tanto que não acompanhei a divulgação dos resultados. Eu estava em uma aula de cursinho pra concurso quando fiquei sabendo. Foi como se os mundos se encontrassem. Meu lado burocrata-mundo real-trabalho com meu lado artista-mundo surreal-quero-escrever-pra-sempre.

Quanto à segunda pergunta, acho que a primeira – e a mais importante – coisa que mudou foi minha autoestima. Era um grupo especialista importantíssimo – e que não me conhecia – me chancelando. A editora me selecionar pra publicar, eu conseguir lançar o livro depois de campanha de crowdfunding, etc, já deveria ser suficiente pra eu me estabelecer, dentro de mim, “sou escritora”. Mas tenho esse problema sério de não confiar muito no meu taco e achar que os elogios vinham só porque eram de parentes e amigos. Não levava esse meu lado artista muito a sério. Mas não, realmente tive meu trabalho reconhecido. E, obviamente, isso me estimula a escrever mais e a buscar novos caminhos no meio literário. Outra coisa que mudou foi a exposição, fiz muitas entrevistas e foi bacana, tive ali uns 20 minutos de fama. É divertido, não vou negar, mas acho que não chega a deixar marcas ao longo prazo

O livro conta a história sob diferentes pontos de vistas de mulheres envolvidas com os desaparecimentos na ditadura.

Você costuma ler muito? Quais suas leituras preferidas?

Gosto de ler. Estou sempre lendo alguma coisa, mas sempre ficção. Dos clássicos conheço poucos, Clarice, Saramago, Gabriel García Marques, Fitzgerald… Gosto, mas com certeza conheço menos do que o que as pessoas esperam de um escritor, rs. Meu dia a dia são regidos por autores mais contemporâneos, como Jonathan Safran Foer, Nick Hornby, Daniel Galera, Adriana Lisboa e, agora, o Julián Fuks, que concorreu o Jabuti na mesma categoria que eu, com o romance A resistência.

Não apenas ele ficou em primeiro na categoria, como ganhou o Livro do Ano, que é o prêmio concedido ao melhor entre os primeiros colocados de todas as categorias. E o romance dele tem o mesmo pano de fundo que o meu – a ditadura da Argentina. Então, a vitória dele significou muito pra mim. Fiquei muito feliz de poder estar lá no Jabuti e ouvir o discurso dele. Por fim, autores que li recentemente e passei a admirar são a Nicole Krauss (A história do amor), Muriel Barbery (A elegância do ouriço) e David Szalay (All that man is).  

Você continua escrevendo? Como está sua relação com a escrita e novas criações literárias agora?

Sim. Logo depois que lancei o Mulheres, já comecei a inventar uns personagens aí e tô tentando colocá-los em vida. Tenho conseguido na imaginação, mas está sendo desafiador jogar para o papel… Vamos ver, quem sabe…? O pior problema pra mim é, caso algum dia eu consiga concluir outro trabalho com começo, meio e fim coerentes, poder bancar. Tenho muita dificuldade com o processo de “sair do armário”, apresentar o que escrevi pras pessoas.


Sinopse

Mulheres que mordem, Beatriz Leal.

Editora: Ímã editorial

Ano: 2015

Páginas: 115

Buenos Aires. Brasília. Anos 70, anos 80, 2006.Buenos Aires. Brasília. Anos 70, anos 80, 2006. Quatro mulheres, quatro mordidas. Uma neta adotada, uma mãe torturada, uma mãe adotiva e uma avó exaurida pela busca. Quatro pontos de vista entrelaçados em uma narrativa intensa e delicada, que joga luz sobre passagens sombrias da história recente latino-americana.