Quero mergulhar pelas janelas e respirar o vento seco que colore o céu por entre nuvens de toda a cidade. Sentir bem fundo a saudade de enfiar os pés na areia e balançar o corpo pelas ondas a me beijar. Enquanto isso, fechar os olhos e saber que quando levanto as pálpebras arremesso todos os problemas para aquele lado a flutuar. Por cima. E depois, devorar as nuvens em formato de espuma, bichos ou qualquer outra coisa que me faça seguir em frente, sem deixar de respirar. Minha cidade tem cheiro de céu e eu ganho o tempo a me esquecer por lá.


Eu gosto de beijo desavisado
passar na rua e ver casal perdido ao sol.
Caminhar e rir do descaramento
do sujeito nada acanhado
que desenrola os medos e faz da pele – outra –
o próprio cachecol.

Despreocupado e o cabelo ao vento a fascinar sem dó.
Larga o passo sem correr no tempo
e o olhar quase acanhado
de pele quente que enlaça sem dar nó

Repara bem no beijo desavisado,
asfalto grosso ou gramado desalinhado,
fecha os olhos e respira de uma vez só.
É tão livre quanto ensolarado…
apaga de vez, enquanto flutua, todo o canto que perturbava ao redor.


No caldeirão dos fartos molhos e temperos experimentados
fica a saliva de quem, ao lado, lambe os beiços,
e torce por um prato generosamente servido,
sem medidas
ou grandes desvios de cuidado.