Início de tarde de outro dia qualquer, o sol ainda é quente no cerrado, queima as pernas mesmo de calças. O clima da cidade é instável, assim como o tempo, vai ver é ensaio para nos acostumarmos logo à falta de previsibilidade dos dias. Achei que ia chover e pedalei mais rápido, não voltei, decidi que era bom seguir em frente. O fôlego me falta em qualquer pequena subida, sempre me faltou. Digo sem hesitar que “minha respiração é curta, não consigo puxar o ar direito”, mas nunca vou ao médico. Prolongo a consulta assim como prolongo a crença de que todas as coisas findam um dia. E assim a respiração segue curta. Falta fôlego para as palavras ditas, mas gosto de ver como se desenham no papel, quase em silêncio.

Retorno ao início de tarde, quando a beira do lago é quase vazia pela presença dos demais compromissos. É segunda-feira, dia de trabalho, ou talvez seja reflexo dos tradicionais janeiros vazios na cidade. A mulher e o menino olham para a água, imersos, sem se importarem com a constância do sol. Escuto o menino apontar os peixes de longe e não ouço mais. Imagino que digam que a água está mais limpa agora. O casal permanece deitado na outra beirada, há sempre casais na beira do lago. A moça sorri, deitada, enquanto o rapaz trata de embaralhar os seus cabelos. Não tiram fotos, enquanto tento fotografar de longe. Eu tiro fotos. É que os dias escapam tão rápido e as certezas de desmancham em velocidade tão grande que tenho vontade do registro para me firmar cada pequena existência. Logo levantam e cantarolam uma melodia estranha enquanto os perco de vista. A existência do riso tem curto prazo. Rapidamente me olham, desviamos em seguida e, assim, nunca mais os vejo. Busco palavras para lhes definir outro instante, mas já não mais os reconheço. São vultos de corpos que um dia cruzaram por mim entre a mesma calçada.

Entristeço-me menos pela distância do que pela perda na parceria compartilhada das palavras. Construo uma quase idolatria por aqueles que me mostram apreço pelas histórias. Queria ser único, indizível, indispensável. Tornei-me descartável ao menor sinal de juízo. Não deveríamos pensar tanto. A garganta enrijecida, queria compartilhar o mundo, queria compartilhar todos os amores que um dia já quis dizer.  Escrevo um poeminha para não jogar o instante fora, quase como reciclagem. Junto os pedaços interessantes daquele todo que não mais puderam guardar.

Fomos arremessados pela janela do carro, eu e as garrafas. Observávamos a estrada como se finalmente tivéssemos aprendido a viajar. Mas não sei. E antes que me esqueça, antes que me perca entre o que quis, escrevo um poeminha de amor para dar cor ao tempo que choveu. Somos poetas de um corpo quase invisível e desenhamos alguns versos ruins para tapear o tempo, que tenta nos embaralhar. Queria correr o dia a céu aberto e empoeirar os pés até que a terra se misture ao próprio caminhar. Acordei um dia e não era mais menino, abri os olhos e, menino da terra, mergulhei o céu para sentir o mar.