A sutileza do bem querer é esperar que o outro chegue, mesmo que o café fique frio, mesmo que lhe passe a hora certa do amanhecer. Por vezes lemos um romance barato para fingir aos pouquinhos que ainda nos impera a crença do amor. E por que teimamos falar o amor em meio ao concreto? Maria perguntava sem dó. O tempo estoura os dias em poeira lá fora e aqui, a gente teima em pensar em bem querer, é essa a minha revolução. Queria que o mundo andasse mais devagar, mas não anda. Então aceito daqui esse punhado temporário que recolhi de pequenas verdades. Queria voltar ao princípio de todas as coisas, assim nunca mais nos tornaríamos enfadonhos com os próprios meios. Sabe que não me canso deles, dos meios? Mergulho e me farto entre as gargalhadas e eternidades dos inícios, assim como me deleito entre o caminhar mais lento e entrelaçado que nos assegura entre o riso cúmplice dos tempos prolongados.

Mas à Maria não basta. Então passo outra café mais forte e cada vez mais adoçado na tentativa de fazê-la novamente se deliciar. A xícara quente entre os dedos fortes, segura como se soubesse que logo mais um pedaço qualquer da louça vai se deixar quebrar. No fim das contas a gente pensa demais e é esse o início e o fim da nossa culpa. Os meninos correm lá fora, e a gente aqui, pensando. Bom mesmo era não pensar em nada, perder o dia, o tempo e a hora enquanto o sol chegava e sumia entre a varanda e o lenço. Esquecer os caminhos de antes e fazer planos como se o concreto não fosse nunca nos alcançar. Do outro lado passou Maria com um vestido de tecido leve, desses que ela usava só para deixar o vento soprar. Respirei aliviado de fora das curvas de meus próprios inventos, do lado de fora, Maria sorria com calma e outra vez eu sabia que o bem querer é sempre um lugar possível de habitar.