Aquela gente toda sentada no deck como se não houvesse nunca a hora de partir. A água não se agitava, era calma, ilesa, quase inexistente. E aquela gente toda ainda sentada. Eu olhava ao redor a ventania afobada que me fazia esquecer aonde ir. Logo atrás ela ainda deitada com a cara virada para o sol. Ilesa. O corpo despencando em minha frente sem sair do chão. Não mais me olhava, largava a pele desinteressada na madeira e movimentava os pés bem devagar. E ainda, aquela gente toda sentada ao redor. Continuei a olhar parado alguns instantes, estagnado, como se fosse possível fazê-la outra vez me enxergar. Não era. Abria um vazio danado essa história partir. Éramos tão dispensáveis a ponto de não acreditar termos sido sonhados alguma vez. Logo ao lado a palmeira balançava cada vez mais forte e eu fechei os olhos antes que alguma lembrança tratasse de rasgar aos pedaços o pouco de certeza que me era possível guardar. Fique em paz, Maria, não sabe que com o tempo a gente aprende a partir sem ter de se despedaçar? Ela inerte. Respirei também parado e ao lado a palmeira não cansava de se balançar. Lembra bem daquela quarta-feira prolongada, era quase como domingo. Planejávamos os sonhos debaixo da infeliz palmeira, Maria. Pode me dizer o que elas faziam tão intactas naquele lugar? Eu gostava de fingir que na hora seguinte a gente ia se banhar no mar e você me puxava de volta, caminhando pela calçada de cimento enquanto me dizia que logo meteríamos os pés em alguma areia esbranquiçada bem longe daqui. Parecia possível. E tu ria da poesia como se fosse algum delírio constante, mal sabia, Maria, era o meu porto se fosse preciso voltar e, veja só, é preciso outra vez. Abri os olhos e te vi levantar, a pele quente do sol da tarde, como esquentava aquela madeira. Fez o corpo se erguer do chão como se fosse o seu último instante possível, e era. Te vi caminhar de costas e aquela gente toda ainda sentada ao redor. Quem era aquela gente? Vai ver tu nem existia, Maria.

Antes de tudo, deveria saber, tua passada foi um trago, um sopro, um rasgo, um instante sem juízo, uma loucura antecipada. Era uma passada sem ritmo em meio a uma calçada quebrada. Era o instante eterno, atormentado por um não, uma espécie de desejo contínuo, atravessado por uma fria e inerte pulsação. Uma terra seca que racha e derruba o passo de quem insiste em modificar o chão. Antes de tudo, deveria saber que a sensação de vazio é o mistério que mata qualquer insana vontade contínua que se afasta da própria – e interna – imensidão. Estagnado, insisto, carne para dois, por favor. Dilacerado pelo tempo, empoeirado pelo vento e arranhado por unhas cortantes de querer, enfim. O vasto menu de corpos, pequenos, frágeis, doces, azedos, curvilíneos, retos, presunçosos ou protuberantes, haveria de enlouquecer os corações mais famintos ou castigados pelo tempo, diria assim. Atordoados pelo instante, salivantes pela descoberta, cortantes pelo impulso atordoado de gosto absolutamente certo. Agarra o instante antes que te escorra feito pele ensopada pelos dedos. Expande os olhos, peitos, respiros, poros e pupilas. Despenteia a alma e tudo mais aquilo que se puder embaraçar.

Marcamo-nos como livres enquanto fugimos do medo da própria liberdade. Endurecer os olhos e calar os desejos, antes repletos de fugas descontroladas entre gargalhadas de prazer. Confundimos a falta de ingenuidade com o excesso de rispidez. Escondemo-nos da criança doce e de sonhos impensáveis, vestimos o figurino da sobriedade. Não há lugar para os amores platônicos, os sumiços não planejados, as mentiras risonhas e o tédio plenamente incansável. Não há lugar para a sobra do tempo e uma falta de compromisso nas mãos, a menos que estivessem preenchidos nossos extensos currículos de vivências, veja só, estão em branco. Não há desculpas para os desapaixonados. Logo, é preciso preencher-se de conquistas e ideias inabaláveis. Confundimos a força com a falta de certo riso permanente e repleto de novos sonhos. Rio então da falta do riso.  Tentamos amaciar novamente a pele com o vento quente de um domingo em vão. Não há liberdade a quem se ressente pelo antes, encoberto de medos. Deixe que se mostrem macios novamente os olhos, a pele, os desejos. É preciso despir-se para permitir que algo a mais nos toque.

Dia desses eu tive a convicção plena de que não mais seríamos, menina.  Aliás, nunca fomos coisa alguma além da minha própria vontade. Permanecemos instáveis, mesmo que toda sensação ao redor se estabilize. Não é possível reconhecer-se enquanto desamor, intensificamos o peso dos olhos, ainda que nos seja possível permanecer sempre leves. Deixamos que nos permaneçam todos os pedaços, todas as tentativas de sermos inteiros. E ainda assim, não nos reconhecemos. O que resta do outro quando já não nos restamos mais? Um fiapo de nada separava o segundo sobressaltado entre o ontem e a espera pela própria eternidade. Naquele tempo, saberia subir em todas as árvores, ver de cima todos os temores, correr até o fim da mais inacabada margem, transpirar pelos poros todos os horrores. Era sonho? A crença é uma escorregadia margem.

Abri os olhos e voltei à casa antiga. Há uma janela ao fundo e um ponto de escape ao centro. Um vento fraco que faz barulho logo atrás e faz voar os últimos fios de cabelos soltos. Há uma incerteza no tempo e um instante que se faz lembrar sempre, tornando intactos os antigos sonhos, quase esquecidos, guardados na última gaveta, da última porta, do último quarto. A maçaneta está quebrada, é preciso puxar com certa força, tirar a cobertura, limpar a poeira, olhar outra vez os mesmos papeis. Há uma lista de passos, um par de pés que se perdem no caminho, uma calçada com curvas sinuosas e um tanto de canto quebrado. Há uma espécie de nuvem que esconde a surpresa do dia, ao mesmo passo em que o céu teima em se mostrar sem estardalhaço. Há uma saudade distante, uma certeza estremecida e uma lembrança desgastante. Há alguma Maria, dispersa, inerte, quase nada estonteante. Há ainda a mesma gaveta e um punhado de antigas verdades que se atiram a um ponto talvez, quem sabe, um dia, revigorantes.