Maria, pequenina ainda, como tantas outras, se agarraria ao fiel princípio de não deixar-se levar ao instante do nada. Entorpecida pelo desejo inalterado de envolver-se no mergulho que nos faz permanecer com os olhos viciados em um ponto de memória, arrancaria a própria pele na tentativa de não se fazer desintegrar.

A descoberta de toda intensa sensação permaneceria ali, como uma crosta que envolve os pequenos buracos que se abrem com a percepção do fim. Ainda que o intenso ardor viesse da certeza de não poder, outra vez, jogar os risos e os cabelos ao princípio, como se o tempo não fosse capaz de firmar o concreto da última vez, permaneceria fiel a cumplicidade de si.

Insone, com o olfato, o tato e os pequeninos dedos perdidos entre a mais doce e absurda ilusão. Construía edifícios de sensações, ruas de sonhos envoltas em cidades de papel e ao fim dos dias, concreto. Sentia a dureza cinza de toda a desconstrução que já não consegue deixar-se de fazer.

Maria menina

Titubeava outra vez ao encontrar-se com o relógio. Era então Maria menina, com as unhas cravadas em garras nos sonhos ainda por fazer. Engolia o tempo. Era então Maria moça, com o sal dos olhos secos e uma teia de verdades a tecer. Olhava outra vez a janela, não havia estrela, mas agora saberia que os olhos buscam a poesia do céu que querem ver.

Era então Maria mulher, desgarrada de todo instante cinza-concreto, escutava e abraçava o mundo quase vazio, deixando soprar o vento em solitude do anoitecer. Soltava os pés na areia mansa, sem deixar enraizar o próprio ser. Haveria de saber, bastaria o riso terno ao caminho incerto, ainda que pulsasse a vontade de endurecer. Ao fim, arde a impossibilidade de poder se agarrar ao princípio.

De peito aberto

Os dois meninos, de peito aberto, lançam seus barcos em meio a maré alta. Deixam um pouco a firmeza da terra e a sensação de segurança ao sentir os grãos de areia fina a lhes preencher os dedos. Todas as finas vidraças foram quebradas nestes tempos e quem vivia de criação, cotidiano ou poesia, viu seus olhos se embaçarem pela poeira que subia do gramado lá fora.

As certezas caíram feito pedra pesada e toda a gente precisou se reinventar. A estrada tumultuada de andarilhos, preenchida pelos pedaços quebrados do concreto que caía da cidade, levava até a beira da praia. Lá, seria possível fechar os olhos e lançar-se outra vez ao próprio mar. Buscavam as ondas solitariamente ou entrelaçavam os dedos logo ao lado, é o que lhes resta. Navegaram. O menino já estava lá.


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