A sensação de liberdade ao colocar o pé na estrada e conhecer novos mundos sem a previsibilidade da rotina é o que as impulsiona a trilhar sempre novos caminhos. As novas perspectivas e descobertas que surgiram ao longo da viagem serviram de inspiração para que Gabriela Goulart escrevesse seu livro, Depois das monções. A autora sempre buscou viver de maneira que pudesse criar e se reinventar sempre e a viagem que deu origem ao livro durou um ano e aconteceu em Bangalore, no sul da Índia. Um blog alimentado por suas experiências durante aquele tempo foi um dos pontos mais importantes para que ela não se isolasse e continuasse a se comunicar com o lado de cá e, desde então, ficou claro a conexão que a viagem tinha criado com a escrita.


Confira a entrevista feita com Gabriela Goulart , as histórias contadas

e as fotografias de viagem feitas pela autora

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Você costuma viajar muito? O que as viagens significam para você?

Viajo muito a trabalho. Aliás, essa é uma das coisas mais gratificantes do meu trabalho: conhecer as pessoas que vivem em condições tão diversas, mas que têm em comum essa energia transformadora. Acho que sempre busquei trabalhos que me proporcionassem esses deslocamentos para ter a oportunidade de observar e aprender sobre o outro e sobre mim mesma. Viagens são oportunidades de se reinventar e ter insights sobre o que faz ou não sentido porque nos obrigam a sair do automático. Todo viajante tem algo de criança que tem que reaprender, observar, experimentar. Então, a viagem tem essa mágica de rejuvenescer e lembrar que a gente pode se encantar com o cotidiano.

Para onde e por quanto tempo foi a viagem que você se inspirou para escrever o livro?  Você já planejava escrever antes de ir ou decidiu que a experiência poderia virar livro quando voltou?

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Passei um ano em Bangalore, no Sul da Índia depois de um mestrado em Londres. Antes de partir, parecia muito corriqueiro ter essa experiência – fui trabalhar na comunicação de uma ONG. Já tinha feito isso no Brasil, era uma chance de botar na bagagem um pouco mais de vivência internacional e de lá quem sabe partir para trabalhos semelhantes. Só que minha arrogância de achar que tinha controle sobre o que se passaria depois do voo da Air India morreu logo na primeira semana de curry. A Índia é forte, extrema e seria praticamente desumano não me deixar absorver por tantas cores, sabores, cheiros. Vivi num bairro muito tradicional, sem conviver com outros estrangeiros durante os primeiros cinco meses. No primeiro mês, fiquei em uma pensão para moças do interior jantando com a TV ligada na novela em Hindi. Contava uns casos no blog taolongetaoperto.wordpress.com, que, aliás, foi extremamente importante para não me isolar completamente e continuar me comunicando com o lado de cá. Escrever já era, então, meu alento, mas tudo muito leve e com filtros que deixavam a realidade parecer mais divertida e pitoresca. Quando voltei é que surgiu a ideia do livro a partir do encontro com outros viajantes. Amigos que também haviam saído de Brasília e duvidavam se caberiam de volta no quadrado.

Como foi transformar a experiência em literatura? Você escrevia um diário de bordo da viagem? Escreveu tudo depois a partir de suas memórias?

Precisei desses amigos (Daniel Cariello, Yury Hermuche e Carol Nogueira), todos viajantes e loucos a ponto de acreditar que nossa vivência deveria ser transformada em livros. Nos encontramos numa dessas idas e vindas que Brasília proporciona e estávamos completamente obcecados por nossas estranhezas provocadas por viagens. Criamos um selo alternativo chamado Longe, que hoje reúne oito títulos (Mariana Carpanezzi se juntou ao grupo no final do ano passado). Os livros são muito diversos, mas têm em comum essa provocação tão típica das viagens – tornar estranho o que era familiar, observar o outro, olhar para si mesmo e perceber que tornou-se o outro de alguém e nunca mais voltar a caber nas velhas verdades. O livro Depois das Monções é sobre esse turbilhão de emoções incontroláveis que acontece quando a gente se joga num país desconhecido. Foi escrito três anos depois das tempestades, mas bastou iniciar o exercício da escrita para entrar num transe e sentir tudo o que foi vivido. Então, trata-se de um livro de memórias, meio ficionado, mas fundamentado nas surpresas cotidianas vividas de maneira bem real.

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O que a viagem despertou e mudou em você, a ponto de surgir a necessidade de virar livro?

A viagem me fez duvidar de quem eu era, me fez repensar o que era importante e me colocou numa situação de solidão extrema que foi aplacada justamente por ter escrito. Isso foi muito bonito: o livro me conectou com outras viajantes, principalmente mulheres. E a solidão da viagem acabou tornando-se o ponto de apoio para novas conexões. Troquei mensagens, conversas e confidências com pessoas que só conheci por ter escrito o livro, principalmente mulheres que viajariam ou viajaram sozinhas.

Que tipos de sensações as viagens te despertam? Você muda um pouco depois de conhecer cada lugar?

As viagens começam com uma sensação quase infantil de liberdade muito parecida com aquele ventinho no rosto quando a gente desce uma rua de bicicleta. Mas logo essa sensação é interrompida por paralelepípedos que fazem a gente perder o controle, falar tremido, segurar firme o guidão para não cair e evitar se machucar ou ferir alguém com nossa ignorância de estrangeiro. Depois disso, não tem como ser a mesma pessoa.

 

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Você já escrevia antes? Pretende continuar a escrever e transformar outras viagens em literatura?

Quando me mudei para Londres, em 2008, é que comecei a escrever. Viagens sempre motivam histórias. Na Índia, onde fiquei praticamente um ano, foi onde mais escrevi. Na volta, mantive o blog vivo ,com crônicas de Buenos Aires, Londres (para onde fui novamente em 2012) e Nova Iorque. São lugares onde tive a oportunidade de passar temporadas de dois a seis meses depois de voltar da Índia para o Brasil. Agora estou bem mais calma em Brasília porque tenho um trabalho maravilhoso que me permite estar perto dos meus por aqui e escapar com frequência, por períodos curtos, para conhecer pessoas de lugares tão diversos como Tumbira (comunidade ribeirinha de onde cheguei hoje), Cidade de Deus ou Brooklyn. Isso tem me proporcionado outro olhar sobre Brasília, uma cidade de gente de todo canto que decidiu fazer do DF o seu lugar. Meu próximo projeto literário será sobre pessoas que vieram de longe e seguem circulando aqui no concreto brasiliense.