A literatura trans se expande através de escritores e editoras especializados, que se empenham em aumentar a presença e a representatividade de gênero na produção literária. Personagens e autores transgêneros permaneceram invisíveis ou ausentes da produção literária nacional ao longo dos anos.

A dificuldade de publicação e a falta de aceitação editorial colaboraram tornar essas histórias ausentes entre a literatura em suas mais diversas vertentes. Para reverter esse quadro e preencher a lacuna histórica, editoras especializadas como a Literatrans, além de autores transgêneros e cisgêneros, trabalham para aumentar a representatividade entre os livros e investem na literatura trans.

O dia 29 de janeiro foi escolhido para representar o dia da visibilidade trans, que marca a luta pelo acesso a direitos básicos. A ideia do dia é ampliar as discussões a respeito do assunto através da produção de uma literatura trans e aumentar o acesso à informação, já que boa parte do preconceito nasce da falta de conhecimento.

Literatura trans e conquistas atuais

Em 2016, um decreto presidencial autorizou o uso do nome social e reconhecimento da identidade de gênero de travestis e transexuais. É essa uma das mais importantes conquistas recentes dessa população.
O empresário Bruno Gabriel Caldeira (25) teve a ideia de criar uma editora especializada quando finalizou um livro para o seu trabalho de conclusão de curso na faculdade. A vontade de publicar após a formatura não parecia viável, já que, para ele, nenhuma editora aceitaria a obra, com o nome Nós, trans.

Atualmente, mais personagens transgêneros começam a aparecer em filmes, livros e séries e, quanto mais visibilidade for alcançada, mais fácil ficará para a população entender e respeitar as questões relacionadas ao gênero.
Entre os objetivos das publicações especializadas está a criação de um espaço para que os leitores em geral tenham acesso a uma ficção que rodei a temática de gênero, discutindo a existência de pessoas transgênero e cisgênero.

Publicações da Literatrans

Os testemunhos e relatos e, até mesmo os de cunho ficcional, têm papel importante na construção de personagens e histórias de superação, igualdade e cidadania, coisas que foram secularmente renegadas a estas pessoas.

Vale a pena lembrar que centenas de pessoas trans morrem diariamente no Brasil, o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2016, foram 127 casos, um a cada 3 dias. A expectativa de vida é de 35 anos, menos da metade da média nacional.

É preciso relatar a diversidade existente no universo trans seja em relação a expressão de gênero, orientação sexual, características físicas, nível de escolaridade e de renda. É importante ressaltar que as narrativas devem ser vastas e plurais para abarcar os diversos públicos e amplificar as vozes trans.

Confira entrevista com o criador da Literatrans

Bruno Gabriel, criador da Literatrans

Como tem seu sido o seu trabalho e o retorno do público com a sua editora? Por que motivo decidiu criá-la?
A ideia da editora surgiu logo que o meu TCC ficou pronto, em 2015. Algumas pessoas acharam que eu poderia colocá-lo á venda. Eu achei que nenhuma editora iria aceitá-lo, então brinquei que um dia eu criaria a minha própria editora para vender meu livro.

Meses depois, conversando com um amigo, ele me deu a ideia de abrir uma editora. Eu decidi pesquisar a fundo e percebi que não era um sonho tão absurdo. Então em novembro de 2016 nasceu a LiteraTRANS com o lançamento do livro “Divino Leviatã”, de Sharon Cardoso.

Como tem sido o crescimento do projeto?
A editora começou de maneira muito tímida. O primeiro livro não teve muitas vendas, mas com o segundo livro (Nós, Trans), a visibilidade da empresa cresceu muito. Hoje nós já temos quase 1.400 curtidas no Facebook. Eu recebo emails de pessoas querendo comprar os livros para a faculdade ou para ajudar no mestrado.

Presença literária

Acredita que personagens trans tenham fica invisíveis e até ausentes da literatura ao longo dos anos?
O assunto “transexualidade” está em alta ultimamente. Isso tem feito com que personagens trans estejam aparecendo cada vez mais em filmes, livros, séries. Porém, esses personagens não são sempre representados por pessoas trans, muito menos escritos por pessoas trans.

Não posso mentir que essa visibilidade não esteja ajudando a trazer mais atenção para nossa comunidade.  Além de trazer mais diálogo para nossas necessidades e problemas. Mas há diferença entre um personagem trans escrito por um autor cis e um escrito por um autor trans.  O personagem, quando escrito por autor trans, terá muito mais carga emocional e mais veracidade em suas atitudes e personalidade.

Reflexão entre as páginas da literatura trans

De que maneira a presença na literatura pode colaborar para a discussão?
Como eu disse, quanto mais visibilidade nós tivermos, mais “comuns” ficaremos. Hoje em dia ser gay ou lésbica na sociedade não é mais visto como novidade, ou algo surpreendente. Eles conseguem viver como o resto das pessoas, já conseguiram ter muitos direitos alcançados. É claro que até para eles ainda falta muito para terem uma vida normal, sem medo de violência ou preconceito.

Só que nós, trans, ainda estamos engatinhando. Muitas pessoas não tem sequer ideia de que nós existimos, ou tem uma ideia completamente errada. Quanto mais visibilidade tivermos, mais fácil vai ser pra população em geral nos entender e quem sabe, nos respeitar

Acredita que este protagonismo deve ser trabalhado na literatura trans por autores transgêneros e cisgêneros? Quais seriam as diferentes perspectivas trazidas?
Sim, com certeza. As pessoas cis tem um grande papel na visibilidade trans trabalhando como aliados, porém eles deveriam pesquisar mais sobre nós. As vezes vemos erros terríveis que poderiam facilmente ser resolvidos com mais pesquisa. Além disso eles poderiam dar mais espaço para nós, tanto dentro do mercado literário, quanto dentro de suas obras.