“Kiki era maravilhosa de se ver, sendo seu rosto naturalmente bonito, ela o havia convertido em obra de arte, tinha um corpo prodigiosamente belo e uma voz agradável. Kiki foi sem dúvida a rainha desse bairro de artista, sonho e destino de milhões de pessoas nos anos 20, e chegou a simbolizar tudo que oferecia Montparnasse.”

Ernest Hemingway

A premiada Graphic Novel de Catel e Bocquet conta, entre realidade e ficção, a vida da importante modelo parisiense Kiki de Montparnasse. O livro consagrou-se como vencedor no Angoulême 2008, além de ser vencedor do Millepages BD em 2007 e do Grand Priz RTL Comic Strip em 2007. A história de uma das primeiras mulheres emancipadas de sua época é mostrada através dos finos traços sem cor de Catel Muller, que já ilustrou mais de 50 livros; em parceria com a escrita primorosa de José Louis Bocquet.

A dupla realizou intensa pesquisa a respeito da vida da artista e escolheu alguns de seus recortes para compor a biografia em 416 páginas. São 370 folhas reservadas para a criação em quadrinhos, acompanhadas pela bem trabalhada cronologia e biografia dos principais personagens do enredo. Apesar da história fragmentada, a leitura é envolvente, tornando a história facilmente absorvida em sua cronologia cheia de altos e baixos.

O traço simples de Catel, que já ilustrou mais de 50 livros evoca com facilidade o clima, a moda e a movimentação cultural da época. A parceria criativa acontece com a escrita primorosa de José Louis Bocquet e a graphic novel retrata o espírito da época e a atmosfera parisiense a partir da década de 1920, mostrando bares, cafés, cabarés e ateliês da cidade.

Tenho tido grande sorte com os meus primeiros livros escritos em Graphic Novel e na terceira leitura do ano me encontro com outro ponto de vista de mulheres que contestaram e revolucionaram seu tempo. Alice Ernestine Prin nasceu em 2 de outubro de 1901, em Châtillon-sur-Seine, pequena cidade da França. Foi enviada para Paris pela avó, que a criava em extrema pobreza, e lá se tornou conhecida como Kiki de Montparnasse.

Man Ray em frente a um retrato de Kiki. /Michel Sima /sc

O bairro parisiense abrigava grande parte da boemia e do burburinho cultural da época, tornando-se ponto de encontro para nomes como Picasso, Fujita, Cocteau e Modigliani. Kiki, irreverente em seu tempo e audaz em seu próprio corpo, tornou-se musa inspiradora para fotografias e pinturas de fortes nomes da década de 1920, inclusive de Man Ray, de quem se tornaria companheira. O local atraía pintores, escritores e músicos de toda a espécie.

Entre os primorosos retratos de Man Ray

A história de Kiki

O trabalho como modelo surge de maneira natural e despretensiosa, através de encontros com artistas da época, de seu carisma e de sua despreocupação com a nudez do próprio corpo. Kiki cantava em bares e se apresentava em badaladas casas noturnas da época, sendo muitas vezes julgada e chamada de prostituta como tantas outras modelos e atrizes de seu tempo. Alice de Prain aventurou-se ainda na pintura, criando telas que ganharam o gosto popular na época. Kiki enfrentou o preconceito e o moralismo da sociedade em que vivia e seu jeito desinibido e intrigante a transformaram em um ícone de seu tempo. Modelo, pintora, cantora e dançarina, Kiki teve presença ativa na vida cultural parisiense. A história nos inspira ao mostrar a genialidade e a segurança de uma mulher à frente de seu tempo.

Noire et Blanche (variante), 1926
Photo de Man Ray

A irreverente e carismática artista publicou, entre 1929 e 1930, sua biografia, intitulada como Memórias de Kiki, que ganhou apresentações de Ernest Hemingway e Foujita Tsuguharu. O livro foi traduzido por Samuel Putnam e publicado em Manhattan, sendo imediatamente considerado indecente pelo governo dos Estados Unidos, onde foi proibido até a década de 1970. Seu estilo de vida mostrava a ruptura com a postura que uma mulher deveria mostrar em seu tempo.

Em meio a um cotidiano polêmico, que envolvia drogas, álcool e paixões ardentes, a modelo mostrava-se livre do padrão e do senso comum de sua época. Mais do que a própria vida envolta a polêmicas de Kiki, acredito que o legado que a artista nos deixa é a de viver de acordo com aquilo que acreditava ser sua própria liberdade.

 


Sinopse

No Montparnasse de boemia e genialidade dos anos 1920, Kiki consegue sair da miséria para se tornar uma das figuras mais carismáticas da vanguarda e do entre-guerras. Companheira de Man Ray e inspiradora de suas fotos mais míticas, ela será imortalizada por Kisling, Foujita, Per Krohg, Calder, Utrillo e Léger. Mas se Kiki é a musa de uma geração que busca sair da ressaca da I Guerra Mundial, é antes de mais nada uma das primeiras mulheres emancipadas desse século. Para além da liberdade sexual e sentimental, Kiki se impõe no mundo por uma liberdade de tom, de palavra e de pensamento que vem de uma única escola: a vida.

 


Grapich Novel – Kiki de Montparnasse

Autores: Catel Muller e José-Louis Bocquet

Páginas: 416

Editora: Galera Record

Preço médio: R$70