Por: Julianna Motter

A socialização é um processo extremamente complicado e especialmente doloroso para indivíduos marcados por uma vulnerabilidade socialmente construída e duramente imposta. É o caso das mulheres e dos demais indivíduos que pertencem à comunidade imaginária LGBTQIA.

No entanto, a socialização, ao contrário do que muitos pensam e insistem em repetir, não é um processo que dura o espaço tempo da “formação do caráter/personalidade do indivíduo”, que marca, no senso comum, apenas o período da infância até o começo da vida adulta. É um processo cuja estrutura é muito mais complexa e violenta do que o ambiente familiar e escolar. Um processo que se estende até o nível acadêmico da escolaridade, por exemplo, e que encontra seus principais meios de regulação em outras esferas: a mídia, os círculos sociais, os médicos, os colegas de trabalho, todos assumem o papel de agentes reguladores do processo de socialização. Todos trabalham para regular/compartimentalizar corpos dentro dos padrões estéticos, comportamentais, sexuais que devem ser seguidos/obedecidos de acordo com seu gênero biológico (sic.) e os papéis de gênero “correspondentes”. Os indivíduos que escapam as normas impostas pela heterossexualidade e a cisgeneridade compulsórias sentem na pele as dificuldades, quiçá impossibilidades, de serem corpos desviantes.

Infelizmente, segundo um lógica hierárquica que estabelece quais corpos são mais ou menos passíveis de solidariedade, compreensão, assimilação – e até mesmo graça -, alguns se tornam muito mais vulneráveis que os outros. Essa hierarquia dita o lugar de cada indivíduo, a partir de suas características, construindo uma dinâmica onde corpos corpos mais ou menos aceitáveis,  “toleráveis” (sic.). A tríade “sexo-raça-sexualidade”, esboçada por Foucault, talvez hoje mais do que nunca, fala por si só e tem, com o passar do tempo, se deparado com outras caracterísitcas, termos e conceitos que têm, cada vez mais, engendrado abismos dentro e através do tecido social.

Nessa lógica de poder/autonomia, o lugar de maior “privilégio” é o do homem cis branco heterossexual e o de menor é da mulher trans negra homossexual. Esses dispositivos de poder – ou melhor, de desigualdade – são acionados na ordem raça – sexo – sexualidade – e seguem encontrando mais desdobramentos quando as questões de gênero e os fatores econômicos são colocados em cena.

Bom, acreditando fortemente na importância de pensar seu próprio lugar de fala, tenho a certeza de que outras pessoas falam melhor da vulnerabilidade das mulheres negras, dos indivíduos trans e das travestis, de indivíduos periféricos do que eu falaria. Então me atenho ao que me trouxe até aqui: sobre o que é ser uma mulher sapatão.

cassia+eller+muitos+recortes+originais+frete+gratis+rio+de+janeiro+rj+brasil__26AFA1_3Sobre os processos de socialização/opressão pelos quais passamos durante toda a nossa vida: em casa, nós, mulheres, somos ensinadas a cruzar as pernas, e os homens, devem aprender o contrário. Nós, mulheres, estamos sempre sujeitas aos olhares que regulam nossa feminilidade/mulheridade. Quando nos afastamos demais disso, somos vistas como não-mulheres a serem corrigidas das formas mais agressivas e perversas, das quais sequer preciso mencionar aqui. Quando não encontramos o meio-termo entre uma coisa ou outra, somos sexualizadas, objetificadas, fetichizadas – mais do que tendem a ser as mulheres heterossexuais. Somos ensinadas a manter as pernas cruzadas e fechadas porque nosso “papel de gênero” nos diz que não devemos ter direito sobre nosso próprio corpo, sobre nossa própria autonomia. Crescemos ouvindo que mulher tem que brincar de boneca, tem que deixar os meninos levantarem sua saia calada, mas só pode escolher beijar na boca depois dos quinze, dezesseis anos. Ouvimos que mulher tem que usar vestido e aprender a mexer com maquiagem, tem que controlar a boca – na hora de falar palavrão ou encher o prato.

Minha mãe, por exemplo, “concordou” que eu fosse homossexual, desde que eu não fosse sapatão – aquela velha “não pego lésbica masculina”, “não pego menina que se veste que nem homem”, tão enraizada mesmo dentro do “circuito” lésbico. Na época, eu aceitei. Mas o que isso queria dizer? Que eu não poderia ser “masculina”. Mas além disso, que eu poderia ter uma “sexualidade desviante” desde que isso não me desviasse completamente do papel que a sociedade – e minha família – determinava para mim. Por muitos anos, eu só saía de casa depois de convencer minha mãe que minha roupa era suficientemente feminina, depois de aceitar colocar um brinco, ou trocar o tênis pela sapatilha.

Meu pai é outro que, talvez sem perceber, porque ambos sempre se consideraram suficientemente progressistas, nunca me elogia, e só o faz em raras ocasiões: quando estou de vestido, salto, cabelo no lugar e maquiada – isso sem contar que, por algum motivo, o fato do meu corpo não ser suficiente magro para os padrões dele, já me coloca bem abaixo do “lugar estético” que ocupam minhas primas, por exemplo.

1297710283640_ORIGINAL

Meus amigos, especialmente os homens gays – que repercutem e financiam, na maior parte dos casos, discursos machistas, misóginos e lesbofóbicos -, também só me notam, só me lêem quando, para eles, estou apta a ser lida como mulher, quando estou “fantasiada”. “Agora sim parece mulher”, eles dizem. Como se uma coisa anulasse a outra, como se eu, ou qualquer mulher, ou qualquer pessoa, mas especialmente as mulheres, precisassem correspondem aos papéis, ou melhor às paródias, de gênero para serem mais ou menos uma coisa ou outra, para serem mais ou menos aceitas, para serem mais ou menos quem são, para terem mais ou menos direitos de ser, independente de qualquer coisa. Como se para ser mulher, eu precisasse ser aprovada por alguém.

Quando eu sou mais uma mulher sapatão com camiseta folgada, comprada na “ala masculina” – depois vamos conversar sobre como coisas não têm gênero naturalmente -, sem a make do momento, com o cabelo ressecado e aquela cara de quem não dorme há três dias, eu sou o que? Provavelmente nada. Provavelmente invisibilizada. Sem receber um “nossa, mas você tá mara!”, “nossa, mas você tá magra”, “nossa, mas você tá demais, hein! eu até encarava uma pepeca!”, “nossa, e esse esmalte, hein?”. Ou provavelmente eu me torne motivo de piada, “lá vem a sapatão”, “olha a mulher macho”. Piada que, na verdade, não tem nada de humor, mas sim de um instrumento legimitimado, aparentemente mais tranquilo, para manutenção desse sistema de opressão, de violência. Piada essa que logo vira um: “é falta de pica” (sic.), “deixa eu entrar no meio de vocês duas” (sic.), “aposto que nunca viu um pau que nem o meu” (sic.), “se eu te pegar você deixa de ser sapatão em um minuto” (sic.).

Mas quando é um homem, transgredindo as expressões e perfomances de gênero, transitando entre uma coisa e outra, questionando a binariedade compulsória, quando uma bicha diva, maravilhosa, lacradora (sic.), encarando um batonzinho, encarando uma sainha, encarando um rosinha, encarando umas unhas pintadinhas, um saltinho, é um sucesso. É um luxo! É um look! É um arraso! É um tombo! É uma lacração! A mídia aprova. A mídia exibe. Não como fetiche ou algo a ser reparado em um “extreme makeover” da vida, como acontece com os corpos femininos “marcados pela masculinidade”. A sociedade aprova. A moda acompanha. É transgressor! É subversivo! É quebra de paradigmas! Mas também é mais uma forma de estabelecer o machismo como padrão irrevogável, mais uma demonstração da misoginia que não varia tanto quando estamos em um núcleo heteronormativo ou em um homonormativo – né?

Há uns meses atrás eu li nas paredes do subsolo do Dulcina, um símbolo de resistência na região central de Brasília, uma pichação que dizia assim: “a força da mulher sapatão”. E é isso, é isso que importa, é isso que devemos fazer importar e reforçar. Nós não vamos nos enquadrar, nós não vamos nos violentar para caber nos padrões. Porque se as “bichas” – como foi reforçado no documentário de mesmo nome disponível no YouTube – são a cara do “movimento gay” (sic.), as mulheres sapatão (mulheres bis, mulheres negras, mulheres héteros desviantes, “mulheres-macho”, mulheres marcadas) são a cara da luta, da resistência. E se vai ter muito glitter, se vai ter muito close, também vai ter muita unha cortada no talo, short de tactel, cerveja gelada, cabelo desgrenhado e o que mais a gente quiser, e vocês vão ter que nos engolir!