Na última semana o neto de Mahatma Gandhi participou de um congresso

chamado Re-Pacificar aqui em Brasília. Tive a oportunidade de conversar

com ele depois de algumas palestras e conto aqui um pouquinho

do que ele tentou me passar sobre educação, paz, sabedoria e boa convivência.

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O pacifista de 78 anos é o quinto neto de Mohandas Mahatma Gandhi, que esteve à frente da liderança por uma sociedade pautada na não-violência. Arun Gandhi, nascido na África do Sul, segue os preceitos que aprendeu durante a convivência com um dos maiores pacifistas de nosso tempo e ressalta que a construção de um cotidiano pacífico deve partir de cada um de nós. Arun falou sobre religião, sistema educacional, convivência, amor e relacionamentos. “Os deuses estão dentro de nós, não estão fechados nos templos. Não adianta praticarmos a paz apenas dentro das igrejas. Meu avô acreditava que a religião mais verdadeira sempre foi servir aos pobres”, afirma.

De maneira serena e sem se estender nas palavras, o neto de Gandhi levantou temas sociais importantes durante sua palestra no Congresso Internacional RePacificar. O objetivo do encontro é se tornar um evento que tem como objetivo principal a construção de pontes entre países e a reunião de grandes nomes da cultura da paz. Neste ano o tema era: ser a mudança que queremos ver no mundo. Arun destacou em sua fala o despertar de todos os povos, sendo que qualquer governo ou democracia precisa de um povo desperto, fora da inércia. “É preciso lembrar a melhor maneira de fazer estes protestos, tendo por base a cultura da não-violência. Uma só pessoa pode fazer muita diferença, então todos nós podemos fazer algo para transformar”, declara.


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Ghandi não deixou de frisar que cada um deve buscar continuamente a verdade dentro de si e que nossa cultura produz muita violência cotidiana. Os pais seriam os primeiros a plantar estas sementes em seus filhos, ao lidarem com as crianças através do medo e da ameaça. “Eu cresci em uma família em que acreditávamos na não-violência dentro e fora de casa. Meu avô sempre dizia que a nossa mente deve ser como um quarto de janelas abertas, deixando a brisa entrar, mas sem se deixar levar por essas brisas. Temos que lembrar que paz não é inerte, é o trabalho corajoso de quem faz despertar uma nova consciência nos homens”, declara o pacifista. Para ele, devemos procurar ajudar de maneira construtiva, já que aqueles que passam por opressões sociais perdem sua autoestima e confiança.


foto282-1Hoje, Arun é o maior divulgador da filosofia de seu avô e comanda um instituto de educação pela não-violência na Índia e destaca que a pior forma de violência é a pobreza ou quando exploramos e oprimimos pessoas. “É preciso mudar individualmente nossos próprios pensamentos e atitudes, depois expandir para os nossos familiares e outras pessoas que convivemos”, afirma. Em relação ao nosso sistema educacional,Gandhi lembra que atualmente as crianças aprendem apenas sobre dinheiro e carreira e é preciso ensiná-las sobre outros aspectos da vida. “Elas tem que aprender sobre relacionamento, caráter, valores, com isso a educação estaria completa”.

O neto de Gandhi lembra ainda que as religiões, ao entrarem em disputas por converter e agregar um número maior de fiéis em relação às outras, não cumprem os próprios princípios que pregam e acabam por gerar mais ódio e conflito, no lugar de promover paz e felicidade. Em relação a convivência pacífica e às tentativas de pregar a ausência de violência entre aqueles que não querem abrir suas mentes e ideias para o diálogo, Arun finaliza: “Temos que responder sempre com amor, não mostrar ódio ou frustração, amá-los, respeitá-los e, eventualmente, eles se abrem”. Vale lembrar que, um dos princípios que ganham destaque durante o dia de diálogo e debates, foi a ideia de que, em nosso cotidiano, temos que tratar uns aos outros como amigos, não como adversários.

Curiosidades – história sobre mudança interior e não-violência

Quando um congressista sul-africano visitou a Índia, ele foi apresentado a mim e pediu que eu o guiasse pela cidade. Quando ele se apresentou, me dei conta de quem ele era. Ele era membro de um partido político opressor, era alguém racista. Em muitos aspectos ele era a razão pela qual eu sofro preconceito. Quando eu o conheci, minha primeira reação foi insultá-lo, pensei em dizer que ele deveria ser jogado ao mar. Mas logo me dei conta de que meus avós e meus pais jamais me perdoariam por um comportamento assim, então eu o ofereci minha amizade, apertei sua mão, mas disse que era vítima de um partido como o dele e de que era forçado a viver na Índia, já que o governo praticado por aquele congressista, não o deixava retornar ao seu país de origem com a esposa. Ainda assim, fiz tudo ao meu alcance para tornar a visita dele proveitosa e feliz. Fizemos muitas coisas juntos e ao fim da sua estadia estávamos todos emocionados, ele me disse que eu o fiz abrir os olhos para os prejuízos que meu partido causava. Isso foi há muitos anos, nós acompanhamos as atividades parlamentares dele e ele realmente mudou as atitudes dele no partido. Se eu tivesse insultado ele como eu imaginei, ele não teria mudado”.

(Arun Gandhi)