Confira entrevista com Tatiana Nascimento, editora fundadora da Padê Editoral. Conheça também a Semilla, primeira feira de impressos voltada para a produção de mulheres

No último sábado o Ernesto Café recebeu mais uma edição da Semilla, primeira feira de publicadoras do Distrito Federal. O evento reuniu autoras, ilustradoras, escritores e encadernadoras, com foco na produção autoral e independente. A ideia é expandir a visibilidade delas no mercado editorial brasiliense.  Além, é claro, de criar um espaço de exposição, venda e programação cultural. Semilla é uma palavra em espanhol que significa semente. A feira é organizada uma vez por ano, pela parceria entre as editoras independentes Padê Editorial e À Margem. Quem também apoia é a ONG Força Afro Brasil.

Ampliar o espaço feminino no mercado editorial, mostrar que a literatura produzida por mulheres integra diversos gêneros e vai além dos romances afetivos ou autorais. Equiparar a publicação e leitura entre autores e autoras, são estes alguns dos objetivos dos coletivos e projetos literários criados por mulheres.  Eles se espalham em diferentes regiões do país.

Com a predominância de nomes masculinos no mercado, mulheres que trabalham com a palavra tem se empenhado, por todo o mundo, em tornar a produção literária mais equilibrada em questão de gênero. É o caso de Tatiana Nascimento, que decidiu criar a Semilla no ano passado. Tatiana é editora fundadora da Padê Editoral, junto com uma poeta de São Paulo. O projeto foi idealizado durante sua participação no festival de música Sonora, quando surgiu a vontade de criar um espaço igualmente rico para a literatura.

Projetos como a Semilla querem equilibrar o mercado editorial

“O mercado editorial é muito restrito. Nas grandes editoras, 70% das pessoas que publicam são homens e 90% são brancas. Mas tem uma tradição muito recente das publicações alternativas e independentes que trazem muitas mulheres. A importância da Semilla é a ênfase específica na publicação de mulheres trans e cis, hétero e lésbicas, acho importante pensar nesses marcadores porque são várias as experiências englobadas, ser mulher não é algo hegemônico, então é muito importante marcar esses espaços específicos”, destaca Tatiana.

A proposta é semear e possibilitar o acesso do público ao trabalho autoral de mulheres que escrevem, pintam, ilustram, publicam e estão à margem das grandes editoras. Tatiana aprendeu mais sobre o mercado de publicações com mulheres que faziam zines e cuidavam da criação, produção e circulação dos materiais. Para a autora, o zine é uma mídia mais acessível, que cria inúmeras possibilidades entre os mais diversos tipos de leitores. Ela criou a editora pensando na igualdade entre as páginas e no objetivo de aumentar a publicação de autoras negras e autoras negras.

“Acredito que a desigualdade de gênero na literatura ainda é grande, por isso eu e Bárbara montamos a Padê, para publicar autoras. Eu tenho acompanhado muitas feiras e eventos, vejo que a produção ainda é, em sua maioria, masculina, mesmo nos mercados alternativos. Isso tem a ver com quem se autoriza a produzir arte e conhecimento. Enquanto a gente estiver em uma sociedade sexista, misógina e com estratégias de reprodução dessa misoginia que contam com meios de silenciamento, a gente vai ter um retrato da produção literária e editorial muito desigual em termos de gênero”, declara.

Trabalho autoral

As publicações são manuais, bem trabalhadas e feitas em um ritmo diferente ao da grande indústria. Quanto à importância de uma literatura que possa refletir o imaginário e a voz de quem a escreve, deixo a palavra com Tatiana, que explica de maneira clara as possibilidades de um processo criativo amplo e diverso:

“O trabalho com a editora tem sido esse, de buscar pérolas na literatura negra, com pessoas que tem uma palavra potente e que tenha a ver com a construção desse imaginário que ultrapassa o status de literatura denunciadora, que ousa imaginar que mundos a gente pode ocupar e que mundos a gente tem que construir quando conseguirmos desmontar o sistema de opressão vigente. Estamos lutando pelo poder de dizer. Quem pode dizer o que e quando. É importante que a gente se publique, mostrando como nós nos enxergamos.

A nossa literatura publicada por nós é muito potente, é um retrato muito mais real de como a gente se sente, como a gente é, do que queremos falar e mostrar sobre a gente. Estou muito nessa de imaginar os mundos futuros que podemos e queremos construir para os povos pretos. São projetos de mundo. Os livros da Padê são lindos, muita gente quer publicar. No ano que vem vamos estrear uma coleção de poesia e uma coleção de teoria, do teatro do oprimido, com a bárbara dos santos, fundadora do teatro das oprimidas; e um livro infantojuvenil”.


Para conhecer

Outro novo projeto inspirado no Leia Mulheres teve sua estreia em Brasília em novembro. Inspiradas pela presença ainda pequena de autoras negras no mercado literário, Evelyn Sacramento, Adriele Regine e Paula Gabriela uniram esforços para criar o projeto Lendo mulheres negras, que teve sua primeira edição com debate da obra de Cristiane Sobral. A ideia é possibilitar um espaço de discussão dos trabalhos das autoras e incentivar a circulação dos livros que, muitas vezes, encontra dificuldade para se inserir de maneira eficiente no mercado. Os temas abordados são diversos e partem do universo retratado em cada obra escolhida.

 

Pesquisas como a da Regina Dalcastagnè (professora de Literatura Brasileira da UnB) mostram que o cenário literário das grandes editoras nacionais é extremamente desigual: maioria dos autores são homens brancos de classe média que, em gêneros narrativos, insistem em construir ficcionalmente o mesmíssimo espaço que ocupam. Desigualdade de raça e gênero se unem na construção do cenário literário atual.

Leia Mulheres!

 

Leia mulheres negras