Ser producente, ser eficaz, ser condizente, ser útil, ser belo, ser eloquente, ser relembrado, ser fadado ao amor. Ser nada, Clarissa. Como posso ser mais do que memória imaginativa se nunca algo nem ao menos fui? Ser engolido pelo tempo. Sou levado pelo tempo. Fui engolido pelo tempo e nem ao menos percebi. Quando dei por mim já não mais me era. Somos sim, fadados aos pedaços esfarelados de massas possivelmente sorridentes que se espalham por um tempo e nos transformam sem cerimônia. Somos prensados, arrancados, desfibrilados, somos enfim, o menor pedaço que se possa retirar de fibra. Somos o que nos é possível ser, menina. Somos o não objeto, somos a estranha teoria do não-objeto, somos a pura aparência. Somos fadados ao desejo, reféns dos corpos, serviçais da pele. A carne nos pulsa enquanto o corpo nos arrasta ao ponto quente e quase estático das sensações. Tato. Não há como escapar. Tato. A pele desmancha toda tentativa, já gasta, de abrir os olhos e não mais ser. Feche os olhos, menina, esqueça-se das degustações do tempo e sinta as ordens enfáticas da pele. E assim, somos. Não há maneiras de se contornar, escapamos temporariamente e logo somos encontrados pelo próprio corpo que pulsa. Estamos fadados a ser.