Eu trabalhava no núcleo de rádio e televisão do Superior Tribunal de Justiça e estava editando uma reportagem quando, em uma imagem gravada de uma das turmas de ministros do Tribunal Superior do Trabalho reconheci, de toga, o poeta Alberto Bresciani, que quase que diariamente posta na rede social poemas seus ou de outros autores. Fui e voltei algumas vezes a imagem no monitor da ilha de edição, até comprovar que aquele homem de ar um tanto circunspecto – que parece parte integrante do rito de um tribunal superior – era o mesmo dono de uma poesia leve e densa ao mesmo tempo, rica em imagens que abrem a gaiola das mentes dos leitores, nos permitindo, muitas vezes, voos sem retorno ao estado em que nos encontrávamos antes. A seguir, uma rápida biografia de Alberto Bresciani e dez perguntas para o autor de estreia de nossa coluna de entrevistas para OCiclorama com autores que moram em Brasília.

fullsizerenderPrimeiramente, gostaríamos de saber por que você escreve? Que motivos te levam a fazer poesia?

Encontrar razões para o ato de escrever, creio, é quase um desafio psicanalítico, mas, pensando em primeiros escritos, talvez a sedução dos livros, imagens, das histórias ouvidas e da palavra impressa fosse o componente dos impulsos mais antigos. Com o tempo, assim como a fala e o gestual, a escrita se torna uma forma a mais de expressão. Uma forma poderosa de expressão e de interlocução com o mundo e comigo. A poesia, sim, é uma decorrência e uma escolha. Certa vez, um amigo observou que o escritor de prosa necessita de companhia, vive cercado de personagens com as quais dialoga permanentemente. Um alarido, muitas vozes o contornam. Sugeria o contrário em relação ao poeta. Embora eu não recuse uma boa conversa, convivo muito bem com o silêncio. Talvez isso explique, sob a visão daquele amigo, a vinculação à poesia. Mas, para além disso, gosto do desafio do poema, das metáforas, do tentar dizer mais e muito no espaço contido da poesia. E o poema, normalmente, surge de uma cena banal do cotidiano, da leitura de outros textos e autores, de um filme ou música, da alma que precisa mais do que os protocolos da vida.

Qual a função social do poeta? Ele a tem?

O poeta é um artista. A poesia é arte. A questão passa, assim, pelas funções da arte, tema que desafia longas e variadas discussões acadêmicas. Penso que a realidade se traduz amplificada em manifestações artísticas. O artista revela o seu tempo. A literatura, sabemos, testemunha e retrata momentos históricos, estimulando reflexões e mudanças, ainda que sob o som e a fúria do escândalo. Se ao poeta cabe dar à linguagem máxima potência, poderá e deverá denunciar, desnudar os conflitos da época em que vive. Não só aqueles que decorram das relações interpessoais, mas também os fatos históricos, os terrores que não se cansam de atormentar o mundo. Veja o exemplo de Gregório de Matos, ainda no Brasil colônia. O poeta é acusador, mas também conforto, justificação, fuga ou pausa para quem o lê.

Seria o poeta um ser que “diz, não dizendo”?

Também. E também “é não dizendo que diz”, como Jorge de Sena descreve a poesia. Estaria aí a sabedoria do silêncio, a que se refere Gilberto Mendonça Teles, quando pensa em uma tal densidade em determinadas ideias que não conseguem ou não devem emergir no fluxo da linguagem, embora ali permaneçam e se façam sentir. O poeta diz, não dizendo quando toma da ironia como arma e método de trabalho, mas pode dizer, recorrendo ao mais cru da linguagem, à expressão mais objetiva, propositalmente composta para a surpresa e o choque.

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A velha pergunta de sempre: como é seu processo de criação? Carrega blocos no bolso? Grava no celular? Reescreve muito?

Em regra, escrevo no celular. Quando alguma ideia surge, abro as notas e é ali que o primeiro esboço aparece. As primeiras cirurgias plásticas também. Depois, mando o texto para o meu e-mail e o imprimo. Aí as modificações vão acontecendo. Reescrevo muito. Quase que a cada leitura, faço modificações nos poemas. Tudo isso cessa com a publicação. E só cessa porque, com a publicação, que sucede ao excesso de intimidade com os poemas publicados, dificilmente volto a eles. Se voltar, reescrevo.

Que temas te inspiram?

A trajetória do ser humano no mundo, todas as surpresas, os erros e acertos, as faltas e as vitórias, as relações possíveis e impossíveis, as intercorrências e os movimentos da vida me fascinam. Meus poemas falam de pessoas, mesmo que as pessoas tomem forma mineral ou animal.

Sua vida de magistrado e sua vida de poeta em algum momento podem possuir uma interseção?

Objetivamente não. Muitas pessoas do universo jurídico não sabem que escrevo poesia, assim como, no mundo literário, nem todos me identificariam como juiz. Os pressupostos, digamos assim, da produção jurídica e da produção literária são distantes. A clareza e a objetividade são fundamentais para uma boa decisão judicial. Clareza e objetividade em excesso podem comprometer o valor do poema. Mas sempre é possível deixar um olhar poético sobre o direito. E, para isso, o que aprendo, lendo ou convivendo com escritores, vem sendo de grande proveito. As pessoas são o foco preponderante do direito, a preservação de suas garantias, de sua dignidade enquanto seres humanos. Fazer a leitura dos casos com cuidado, sem dureza ou brutalidade, pode ser um modo de o juiz aplicar o direito com poesia.

a-inutilidade-da-poesia-htmlHá quem diga que poesia é bem mais do que escrever, pode até mesmo ser considerado um jeito de viver, um modo de levar a vida, de olhar para as coisas. O que acha dessa ideia? Você é um poeta que vive como tal?

Concordo com a ideia. Pode-se e deve-se viver com poesia. O poeta, mais do que todos, precisa viver com poesia. Do contrário, não encontrará o que expressar ou se expressará sem poesia. Acho que poetas vivem assim, em constante observação do que acontece e do que lhes cai nos sentidos. E isso para o bem e para o mal. Se encontramos nossa voz poética e temas nesse processo, também estamos, proporcionalmente, mais suscetíveis a ferimentos.

Você divulga muito o trabalho de outros poetas nas redes sociais. Elas, as redes, prestaram um favor à poesia? Elas estão formando leitores do gênero, tornando esse tipo de literatura mais difundido?

Eu acredito que sim. Não se pode negar a realidade, as feições do tempo em que se vive. As redes sociais existem, dão voltas ao mundo. A poesia, desde sempre, foi uma arte de alcance restrito, elitista até. Há quem sustente que assim deve ser. Eu não concordo. No tempo em que vivemos, quando a poesia se vê livre de cânones, de escolas, quando há extrema diversidade na produção poética – e não só no Brasil –, surgem espaços para diferentes dicções, que atingirão grupos variados e diferentes leitores. As redes sociais me permitiram o contato enriquecedor com uma vastidão de pessoas. Esses contatos me levaram a conhecer trabalhos espetaculares, poetas extremamente talentosos, que contribuem, pela interação, para as modificações da minha poesia. E, de quebra, trouxeram-me convites para publicação em antologias, jornais, revistas, que, de outro modo, tenho certeza, não viriam. Acredito que o mesmo aconteça com outros poetas. Quando posto poemas (e não só os meus, claro), encontro manifestações e retorno de pessoas que, em princípio, não teriam reservado tempo para a poesia. Depois, muitas dessas pessoas me pedem indicações bibliográficas ou procuram os autores, descobrem que poesia não equivale ao indecifrável, ao impossível. As postagens nas redes sociais, no entanto, valem como uma provocação, porque têm vida útil curtíssima, logo se perdem na sucessão de novas entradas. De qualquer modo, nessa vida efêmera, alcançam a muitos e os conquistam.

Você nasceu no Rio, passou por Minas e Mato Grosso do Sul, e há alguns anos está em Brasília. Sua poesia carrega algo desses lugares? E de Brasília? Há algum traço em seus poemas?

A maior parte de minha vida, eu passei em Brasília. Estou aqui há quase vinte e oito anos, com um breve intervalo de quatro meses, quando me mudei para o Mato Grosso do Sul (em função do trabalho). Minha poesia não existiria em livro se não fosse por Brasília, pelos poetas acolhedores que aqui vivem e trabalham e que me estimularam à publicação. Este é o meu habitat natural. Assim, não haveria como negar a sua presença em meus poemas. O imenso céu, obras de arte, contrastes, a planície. Muito mais do que qualquer outro, o meu lugar é Brasília.

Se você pudesse ser outro poeta, além de Alberto Bresciani, escolheria algum?

Muitos e tantos que não saberia escolher. Acabaria com mais heterônimos do que Fernando Pessoa. Celebro a existência desses tantos. São a nossa certeza de boa e muita poesia para mais de uma vida.


Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Vive em Brasília desde 1988. Publicou Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011) e Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015), ambos de poesia. Integra antologias publicadas no Brasil, França e Estados Unidos, além de ter poemas em jornais, revistas e sítios da internet especializados em literatura.


Submersos

Submersos
nos sentimos leves
com cabelos de algas

Nenhum fruto
se iguala ao que nada
Sim, morder a maçã
limpa os dentes

Mas escute um pouco
o arrepio que se evola
do fluxo cadenciado
das brânquias

No fundo
sempre fomos felizes

Alberto Bresciani