Eu era diretor de jornalismo aqui em Brasília da Rádio BandNews FM na década passada quando um cabra com voz forte e sotaque acentuado me procurou na redação. Era Adeilton Lima. Vinha propor um quadro em que ele declamasse poemas na programação local da rádio. Imagina, que louco! Poesia se enfiando no meio de tanto escândalo e bandalheira de Brasília. Como também sou louco, adorei, e fui correndo levar a proposta à direção da rádio. Bem, tudo aquilo me proporcionou algo melhor ainda: conhecer o trabalho do ator e poeta Adeilton Lima, nosso convidado desta semana aqui na coluna.

adeiltonVocê recém lançou seu primeiro livro de poemas. Como foi o processo de escolha dos textos? Que fio o conduziu para formar o livro e conseguir que ele tivesse uma unidade?

Tenho um blog, o Transe Teatro, onde registro muito do que escrevo. Mas fazer uma seleção e deixar outros textos de fora é meio complicado, é uma espécie de filtragem do coração e da alma. Deixei que cada texto, de certa forma, falasse por si mesmo, se impusesse na cronologia um tanto oblíqua que definiu a composição final. E a unidade paradoxalmente se fez!

Seus poemas passam um tanto de sensações corpóreas, como sentir o vento, olhar a lua, observação de aromas, cores… qual a força desses elementos em sua poesia?

Gosto das experiências sinestésicas aliadas aos fenômenos da natureza. Tais experiências conjugadas aos sentimentos que vivemos no percurso diário de nossa sobrevivência nos ajudam a encarar melhor o mundo cada vez mais estranho em que vivemos. A poesia tem essa função.

Teu livro chama a atenção também pelo acabamento gráfico. Como foi até chegar a esse belo resultado? Um livro bonito esteticamente valoriza o texto do autor?

Acredito que sim. Uma arte que estabeleça diálogo sem ser uma referência literal dos textos enriquece a leitura e não tem a pretensão de explicar ou traduzir o escrito. Haroldo Brito foi muito feliz na percepção desse diálogo. Fiquei muito feliz com o resultado e temos recebido um retorno muito bom dos leitores. Sentamos lado a lado algumas vezes analisando cada proposta de arte para o trabalho. Diálogo e paciência são bases para um trabalho fértil.

                             

Teus poemas transmitem paz, sossego, às vezes é como se deitássemos em um quarto silencioso com brisa fresca entrando pela janela. Você tem essa paz dentro de você ou sua poesia é justamente uma busca por essa tranquilidade?

Fico muito feliz sempre que ouço ou leio esse tipo comentário, pois o que faço, seja no teatro ou na literatura propõe isso. Na verdade, todos somos brisa e tempestade. Porém, vejo a poesia como um estado meditativo, mantras que sacodem a suposta calmaria das profundezas oceânicas da nossa existência. Se como disse o poetinha que “o bom samba é uma forma de oração”, uma boa paráfrase seria dizer que o poema cumpre essa função, o poema é a própria oração, assim como uma boa canção. Toca-nos a alma, explode o peito, grita o caos social, mas também pacifica. É como uma meditação ativa que chacoalha o corpo, inquieta a alma, aquece a existência e culmina na leveza. Estou sempre no cruzamento dessas forças, ora buscando, ora compartilhando.

Você é originariamente um ator que descobriu a poesia depois. Como foi isso? O teatro te levou à poesia?

imagesToda arte traz em essência na sua estrutura e linguagem a força da poesia. A poesia que está no quadro “O Grito”, de Edvard Munch, no cinema de Charles Chaplin ou de Akira kurosawa, nas canções de Chico Buarque ou em uma cena do grupo Corpo. Sempre gostei de ler e interpretar poesia, exercício fundamental para quem quer atuar. Comecei interpretando Fernando Pessoa, acho que nesse aspecto tive sorte. Nunca separo o teatro da poesia, acredito num teatro profundamente poético.

 

Como é a diferença das suas necessidades de se expressar como ator e como poeta? É algo racional, do tipo: isso quero dizer como ator? Aquilo quero mostrar como poeta?

Como disse anteriormente essas linguagens estão inter-relacionadas, uma contém a outra, pelo menos no que me proponho a fazer. Creio que Artaud definiu bem essa relação quando disse que o teatro é a poesia no espaço. Nesse caso, outros elementos entram em jogo, corpo, voz, gesto, olhar etc. Ainda sobre a arte gráfica de Haroldo Brito, no livro, ela talvez agrade exatamente por isso, pois resulta em semiótica, diálogo de linguagens. Duas poéticas que dialogam. Muito do que faço em poesia já migrou para o palco. É uma relação umbilical.

Você está vendendo seu livro nos bares. Como tem sido essa experiência?

Comecei a fazer isso há muitos anos quando lancei um CD de poesias, o Raízes da Voz. É uma experiência maravilhosa, pois você lida constantemente com o inusitado, como acontece com o teatro de rua. Já fiz amizades que duram até hoje, vi pessoas se emocionarem e também até quem não foi tão simpático, mas tudo faz parte, cada lugar é um universo, cada mesa de um café ou bar é um palco diferente. Mas sempre peço permissão para me aproximar, temos que respeitar o sagrado do outro. A noite é uma corda bamba sem redes de proteção. De qualquer forma, não vou esperar por uma editora pra vender ou distribuir meus trabalhos. Vou à luta, vale a pena e o saldo, inclusive humano, é positivo.

E decidiu realmente viver da arte, do teatro, da literatura? Como está sendo isso?

Há quinze anos não sei o que é carteira assinada, e lá se vão quase trinta de estrada. É um grande risco, claro, mas adoro ser meu próprio patrão, exige muito trabalho e disciplina. O que cansa são a inveja e os boicotes que às vezes rolam tanto no teatro quanto no meio literário. Mas a gente vai caminhando sabendo que quando o solo é sagrado, os deuses nos protegem. Cada poeta que tenho no meu repertório é um anjo da guarda. São meus protetores e avatares. A poesia é o altar.

Recentemente você trouxe para os palcos de Brasília uma montagem de textos de Glauber Rocha. Qual a importância de Glauber para o momento politico do Brasil atual?

Glauber Rocha é uma figura referencial para se conhecer e compreender o Brasil. Se a acefalia não fosse tão grande, ele seria estudado nas escolas públicas e seus filmes seriam exibidos em horário nobre, assim como a grande produção do Cinema Novo. Muito do que Glauber escreveu e filmou está na grande tela da realidade que estamos enfrentando. Glauber era um visionário e apaixonado pelo Brasil, sua gente e sua cultura, seu legado é o de luta, força e fé por essa nação na defesa dos oprimidos. O dragão da maldade é um fantasma que historicamente alimenta golpes, traições e roubalheiras e está constantemente trabalhando pela alienação e exploração do povo. Tá tudo aí de forma absurdamente real. Terra em Transe também continua cruel e atual.

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Você é muito crítico das políticas culturais do DF e do país também. Elas são míopes? Deslocadas da realidade, das necessidades reais do povo?

No DF, historicamente, precisamos superar o espírito de província, um vírus cuja vacina ainda está a caminho… O Brasil tem uma elite estúpida que só quer saber de Miami e Europa, o consumismo sem freios. Gente pra quem a palavra cultura é apenas um produto de vitrine. Quem dita as regras é o grande mercado, o capital, o jabá em todos os setores. Uma postura discriminatória que massacra, oprime e dizima nossas raízes culturais. Os grandes meios de comunicação prestam um desserviço à nossa cultura enquanto os dirigentes políticos geralmente são incautos, néscios e sem visão. Não dialogamos com nossos vizinhos e suas respectivas culturas. Um Gil ou um Juca Ferreira são raridades em meio ao deserto e ao caos.

A classe artística é desunida?

Infelizmente, sim. Muita disputa boba, criticismo e nepotismo de grupinhos. A arte é ainda mal compreendida como expressão de luta e de transformação. O que se vê são egos exibicionistas, disputas políticas, apadrinhamentos e a necessidade do sucesso a qualquer preço.

Pra encerrar, um ator e um poeta que te fazem realmente a cabeça. Só vale um de cada campo.

Rubens Correa, um ator gigante, generoso e inesquecível em cena.

Fernando Pessoa, semente de tudo.


adeiton_lima2Adeilton Lima é ator e professor de literatura, teatro e cinema, com mestrado em Teoria Literária pela Universidade de Brasília. Há 28 anos, atua na cidade onde é conhecido pelo trabalho direcionado para a poesia e pelos solos de investigação teatral como A Conferência, de sua própria autoria, Diário de um Louco, de Nicolai Gogol e Para Acabar com o Julgamento de Deus, de Antonin Artaud, que acaba de completar 20 anos desde sua estreia. Atuou no cinema em A Dança da Espera e Um Certo Esquecimento, de André Carvalheira, entre outros trabalhos. Estreou recentemente seu novo espetáculo Glauber Rocha, O Profeta do Delírio. Tem um site www.adeiltonlima.com.br  e um blog: http://adeilton-lima.blogspot.com.br/, onde publica textos em áudio da poesia brasiliense, brasileira e universal e onde também divulga seus próprios poemas.