Vidas Secas, um dos romances mais humanos da literatura brasileira, escrito por Graciliano Ramos, agora tem a sua versão em graphic novel – a novela gráfica, gênero que está chamando a atenção de muitos leitores devido aos seus inúmeros processos de elaboração, mas que também sofre críticas negativas por ser considerado “literatura de preguiçoso”. Percebam: uma obra clássica da literatura não necessariamente chama a atenção de um jovem leitor, certo? Não é o caminho comum que estamos acostumados a vê-los tomar. Por outro lado, esse mesmo jovem, ao ler essa mesma obra em quadrinhos, pode ter seu interesse despertado, porque é um gênero mais próximo do que eles, hoje, costumam ler. Temos que estar dispostos, sempre, a ler fora da caixinha!

Não se iludam, as novelas gráficas são de uma riqueza impressionante! Têm-se, no mínimo, quatro profissionais diferentes para escrevê-las: o ilustrador, o roteirista, o designer e o quadrinista. Esta versão de Vidas Secas teve, então, quatro olhares diferentes sobre a mesma obra. Quatro vezes que a história de Fabiano e sua família tocaram, de diferentes formas, diferentes pessoas.

Nessa obra, as ilustrações são muito íntimas. É como se Eloar Guazzelli, o ilustrador, tivesse penetrado na nossa imaginação e tivesse tirado dali as imagens mais fortes que temos sobre os personagens. Com certeza, essa é a parte mais impressionante do livro. No original, percebemos que os personagens são pessoas que perderam suas identidades por causa do contexto da seca, que traz consigo perdas inomináveis. Na novela gráfica, os rostos de todos os personagens são lisos, em branco – exceto quando a história está dando ênfase em um deles. São imagens tristes, mas que retratam como eles são vistos, enquanto seres humanos, pelo resto do mundo. Baleia, a cadela, tem seu rosto mantido nas ilustrações. O porquê é simples: ela é considerada – dentro do contexto da obra e das críticas já feitas sobre ela – muito mais humana do que os próprios humanos. Fabiano se considera bicho, ainda que humano. Baleia é bicho, ainda que mais humana que Fabiano. O aspecto animalesco dado aos personagens humanos, principalmente por causa da seca, das dificuldades advindas da condição de retirantes, da subordinação que sofrem ao longo da caminhada, é mantido e bastante explicitado na novela gráfica.

O roteiro, por outro lado, é menos impactante do que o texto original, apesar de fazer jus às ilustrações. Arnaldo Branco, o roteirista, explorou partes da obra original que são indiscutivelmente impactantes. Por outro lado, esse recorte pode ser clichê justamente por se tratar de partes que todos nós já esperávamos que fossem tratadas. Ainda assim, a obra tem o seu objetivo alcançado. Os leitores de Graciliano Ramos sabem que Vidas Secas é uma obra-prima. Não poderia ser diferente em qualquer outra versão. O cuidado com as partes mais firmes das falas dos personagens foi mantido, assim como a ênfase nas partes mais fortes, aquelas que nos deixam reflexivos, que fazem a gente deixar, deliciosamente, Fabiano e sua família interferirem – e permanecerem – nas nossas vidas.

A divisão de capítulos é quase idêntica nas duas obras, a única diferença é que, na original, o último capítulo se chama O mundo coberto de penas, e na novela gráfica, O mundo coberto de plumas. Uma pluma é um conjunto de penas, assim como o gênero graphic novel é um conjunto de olhares diferentes sobre uma mesma obra – uma mesma pena. Interessante, né? São sensibilidades que somente a literatura genuinamente humana nos traz.

Vidas Secas, uma obra que pode ser lida de trás para frente que ainda vai fazer total sentido; uma obra que permeia a vida de seus leitores justamente por ser sensível à vida destes; uma obra completa, de formação humana, verdadeira. Uma obra que agora ganhou uma nova forma de ser lida, apreciada. A novela gráfica desse romance único vale a leitura, pensando sempre que é importante ler fora da caixinha, sair da nossa zona de conforto literário, pois só assim poderemos, de fato, degustar cada pedacinho do que a literatura nos oferece.